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Pesquisadores descrevem quatro novos gêneros e nove espécies de gafanhotos, ampliando o conhecimento sobre um grupo ainda pouco estudado no Brasil.
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A identificação dessas espécies é fundamental para mapear a biodiversidade florestal e orientar a conservação na Amazônia antes que os animais desapareçam sem serem conhecidos.
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Em vez de recorrer apenas ao latim tradicional, os cientistas batizaram as espécies com termos da língua indígena Kamarayano e referências ao Festival Folclórico de Parintins para aproximar a ciência da cultura local.
Quando Larissa Queiroz, doutora em Entomologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), começou a visitar coleções científicas em busca de exemplares de Proscopiini, encontrou um problema: muitos daqueles insetos estavam preservados, mas quase nenhum havia sido identificado.
“Quase nada tinha ali um nome para a gente saber de qual grupo era”, relata Larissa.
Os Proscopiini são um grupo de gafanhotos pouco estudados, com espécies distribuídas por diferentes regiões e biomas do Brasil, incluindo a Amazônia. Durante muito tempo, esses insetos chegaram a ser confundidos com os chamados bichos-pau, que pertencem a outro grupo: são gafanhotos da ordem Orthoptera.
O problema vai além da nomenclatura. Conhecer quais espécies vivem em uma floresta é uma etapa básica para entender sua biodiversidade e saber o que existe em uma área que se pretende proteger. “Hoje em dia, para conseguir proteger uma área de floresta, você precisa fazer um levantamento da fauna que existe naquele ambiente. Algumas pessoas às vezes confundem, mas insetos também são animais, então eles também fazem parte da fauna”, explica Larissa.
Foi para preencher parte dessas lacunas que a pesquisadora realizou, pela primeira vez, uma análise filogenética dos grupos internos de Proscopiidae — família à qual pertencem os Proscopiini. Publicado em 2026 na revista Zootaxa, o estudo comparou características morfológicas para reconstruir as relações evolutivas entre esses grupos.
O trabalho resultou na descrição de quatro novos gêneros e nove novas espécies, além da redescrição de três gêneros, da sinonimização de outros dois e da proposição de dez novas combinações taxonômicas.
Larissa conduziu o estudo em parceria com os também entomologistas José Albertino Rafael, pesquisador associado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Raphael Aquino Heleodoro, professor do Museu Nacional (MNRJ).
Os desafios de identificar uma espécie
Para reconstruir a história evolutiva dos Proscopiini, os pesquisadores compararam 51 espécies a partir de 80 caracteres morfológicos, incluindo características externas e estruturas reprodutivas de machos e fêmeas.
Mas, para saber se um inseto pertence a uma espécie diferente, não basta encontrar uma aparência incomum. Em muitos casos, é preciso examinar características morfológicas mais detalhadas, incluindo estruturas reprodutivas, e comparar exemplares. As diferenças entre machos e fêmeas também podem tornar a identificação mais difícil.
“Até então, não se sabia nada sobre a hipótese de relacionamento de parentesco entre as espécies desse grupo de gafanhotos. Como os próprios autores destacam no artigo, esta é a primeira filogenia produzida para o grupo”, explica Lucas Denadai de Campos, pesquisador de pós-doutorado no Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e do Muséum national d’Histoire naturelle, na França, que não participou do estudo.
Para Campos, as características morfológicas analisadas são importantes para a identificação dos insetos. “Para os insetos, de uma maneira geral, o uso de estruturas sexuais, principalmente as genitais, é crucial para a identificação de espécies e de grupos taxonômicos mais abrangentes, como gêneros e famílias”.
O caso de Proscopia gigantea ajuda a dimensionar o problema. Descrita em 1820 apenas a partir da fêmea, a espécie passou mais de dois séculos sem que seus machos fossem reconhecidos.
A dificuldade ainda aparece quando uma espécie é encontrada pela primeira vez. Foi o que aconteceu com Celatus nath, uma das novas espécies descritas no estudo. Larissa suspeitou que se tratava de um animal desconhecido depois de ver uma fotografia feita na região da Cachoeira da Sussuarana, em Presidente Figueiredo, no Amazonas.
“Eu só tinha uma foto e um sonho”, lembra Larissa, em tom divertido. Na primeira coleta, encontrou uma fêmea. Mas, para avançar na identificação, precisava localizar o macho. Foram cinco meses de coletas até encontrar o primeiro.
A demora não foi por acaso. As fêmeas de Celatus nath têm coloração marrom, com manchas escuras pelo corpo, enquanto os machos apresentam manchas concentradas na região da cabeça. Em meio à vegetação, essas características podem tornar os animais difíceis de localizar.
A busca acabou registrada no próprio nome científico. Celatus vem do latim e significa “escondido”, em referência à dificuldade de encontrar os machos do grupo na natureza. Já nath homenageia a sobrinha de Larissa, Nathalie Caroline Campos Aguiar, conhecida como Nath, em referência ao entusiasmo da menina por insetos e pela natureza.
Identificar e descrever essas espécies, aponta Campos, não é apenas uma questão de organizar nomes. “Sem o conhecimento da diversidade atual, é impossível prever maneiras de protegê-la e cuidar do meio ambiente. Além disso, espécies novas que estão sendo descobertas agora podem, no futuro, trazer informações e utilidades para o nosso dia a dia”, afirma.
Parte dessa diversidade, porém, pode ter sido perdida antes mesmo de ser estudada. Fernando Domenico, doutor em Zoologia pela Universidade de São Paulo (USP), especializado em sistemática e evolução de insetos, lembra que o Museu Nacional do Rio de Janeiro guardava uma grande quantidade de exemplares que ainda não tinham sido analisados.
“Tínhamos, por exemplo, uma coleção enorme, com muitas espécies ainda não descritas de gafanhotos como um todo, mas infelizmente grande parte desse material foi perdida no incêndio ocorrido em 2018. Entre os espécimes estavam muitos exemplares amazônicos que nunca haviam sido estudados e que poderiam contribuir para o conhecimento da diversidade do grupo.”
Uma nova árvore taxonômica para organizar os gafanhotos
A análise filogenética permitiu aos pesquisadores reorganizar parte da classificação dos Proscopiini. De acordo com Domenico, a árvore evolutiva corroborou a hipótese de que alguns gêneros de proscopídeos estão agrupados na tribo Proscopiini e ajudou a estabelecer quais espécies são mais próximas evolutivamente. O zoologista não participou do estudo, mas foi consultado pela Mongabay para comentar os resultados.
“Os resultados indicam que esses gafanhotos compartilham um ancestral comum mais recente entre si do que com outros grupos de proscopídeos”, avalia.
Com base nessas relações, os pesquisadores propuseram uma nova organização para algumas espécies, reunindo em novos gêneros aquelas que apresentam maior proximidade evolutiva. O estudo descreveu quatro novos gêneros e nove novas espécies, além de redescrever três gêneros, sinonimizar outros dois e propor dez novas combinações taxonômicas.
Oito das novas espécies foram registradas na Amazônia brasileira, nos estados do Amazonas, Acre, Pará e Roraima. A nona foi encontrada na Colômbia.
Entre as espécies brasileiras estão Celatus nath, de Presidente Figueiredo (AM); Kamara kratxatxa, de Rio Branco (AC); Lianascopia albae, do Tiquié (AM); Lianascopia domenicoi, de Amajari (RR); Milenascopia uatuma, de Presidente Figueiredo (AM); Proscopia caacy, da Serra Norte (PA); Pseudoproscopia taka, de Itaituba (PA); e Pseudoproscopia trajakan, de Manicoré (AM).
Além de ampliar o conhecimento sobre a diversidade do grupo, o estudo também fornece informações que podem ser importantes para a conservação. “Trabalhos como este, nos quais novas espécies são descobertas e descritas, e suas relações evolutivas são investigadas, fornecem informações fundamentais para a conservação da biodiversidade”, comenta Domenico.
Os nomes escolhidos para as novas espécies também chamaram sua atenção por fazerem referência à cultura amazônica.
“Acho que essa foi uma excelente decisão dos pesquisadores, pois ajuda também a valorizar e aproximar a pesquisa científica da cultura e da biodiversidade da região.”
Nomes que carregam histórias
O Boi-Bumbá Garantido é uma das duas agremiações que disputam anualmente o Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. Criado em 1965, o festival é uma disputa entre o Garantido, representado pela cor vermelha, e o Boi Caprichoso, identificado pela cor azul. As apresentações acontecem no Bumbódromo, arena onde os dois bois apresentam músicas, histórias, personagens e referências às culturas amazônicas e aos povos indígenas.
As músicas que acompanham essas apresentações são chamadas de toadas, um gênero musical regional característico do festival. As canções podem exaltar a identidade dos bois ou abordar lendas, rituais e outros elementos das culturas amazônicas.

Foi nesse universo que Larissa encontrou referências para nomear um dos novos gêneros descritos no estudo: Kamara, que tem como espécie-tipo Kamara kratxatxa.
A pesquisadora queria ir além da tradicional nomenclatura científica em latim ou grego e aproximar os novos nomes das culturas e línguas da região onde as espécies foram encontradas. Para isso, recorreu a dicionários de línguas indígenas, mas percebeu que os livros não eram suficientes. Queria ouvir também quem conhecesse essas culturas por dentro.
Foi assim que Larissa chegou a Joao Wehteke Kamarayano, indígena do povo Kamarayano. Ela mostrou a ele uma fotografia da fêmea e recebeu a colaboração que procurava.
Joao apresentou à pesquisadora uma palavra usada pelos Hixkaryana para se referir a esses insetos: kratxatxa. O termo passou a compor o nome da nova espécie, Kamara kratxatxa.
A outra parte do nome veio de uma referência ainda mais profunda. Entre os Kamarayano, Kamara é a Grande Onça-Mãe, entidade ligada à criação do mundo, à floresta, aos rios e à origem da vida. A palavra também era conhecida por Larissa por meio das toadas do Boi Garantido.
“Escutando toadas você aprende muito. Você aprende as tradições, os costumes, as etnias, e um pouco da linguagem dos povos originários da região Norte. Eu queria juntar essas duas coisas.”
Uma dessas toadas é justamente “Kamara”, composta por Geandro Matos, Jorge Renato e Paulo Lindoso para o Festival de Parintins de 2026. Geandro vê na escolha do nome uma nova camada para uma palavra que já carregava um significado na cosmologia Kamarayana e outro na cultura do boi-bumbá.
“Ela ganhou uma terceira dimensão nesse caso: uma dimensão do nome Kamara na toada, que foi do Garantido, e agora a Kamara em um sentido ambiental, científico, como uma espécie.”
O nome ganhou ainda outro significado para quem ajudou a construí-lo. Aquela fotografia ajudou a confirmar que a espécie-tipo já era conhecida pelos Kamarayano, mas ainda não tinha um “nome branco” — uma denominação pela qual pudesse ser reconhecida fora da língua e do conhecimento tradicional do povo.
Para Joao, registrar esse nome na ciência é também uma forma de registrar a presença de seu povo.
“Vai ficar marcado para sempre. É uma coisa que não vai mais ser tirada. Nós estamos conectados com a natureza, com os animais, com a água. A natureza é a base da nossa vida. Acho muito importante essa inclusão.”
Os Kamarayano são um subgrupo do povo Hixkaryana e, de acordo com Joao, atualmente são cerca de 86 pessoas. Historicamente, uniram-se a outros grupos da região para sobreviver a conflitos territoriais.
“O povo Kamarayano não desistiu. É um povo que tentou de tudo pra se manter em pé. A resistência do nosso povo, de não querer ser extinto. Essa é a importância.”
Kamara kratxatxa não foi a única espécie em que Larissa aproximou a nomenclatura científica da cultura amazônica. Em Proscopia caacy, outra das espécies descritas no estudo, o nome também nasceu de uma referência indígena. Segundo o estudo, caa significa “água” e cy, “mãe”, em tupi-guarani. A combinação faz referência a Caa-cy, figura da ancestralidade indígena associada à proteção da floresta e das águas, e foi escolhida por Larissa como um tributo ao Festival Folclórico de Parintins.
A escolha dos nomes está ligada ao desejo de Larissa de ampliar o acesso ao conhecimento produzido durante a pesquisa, especialmente entre as pessoas que vivem nas regiões onde as espécies foram encontradas.
“O que existe na natureza é importante. Eu gostaria muito que a população em geral, mas principalmente da região Norte, conhecesse mais esses gafanhotos.”
Imagem do banner: Gafanhoto da espécie Celatus nath, uma das nove novas espécies descobertas pelo estudo. Foto: Reprodução do artigo científico.
Citações:
Queiroz, L. L. D., Rafael, J. A., & Heleodoro, R. A. (2026). Systematics of Proscopiini Serville, 1838 (Orthoptera: Proscopiidae: Proscopiinae), with description of four new genera. Zootaxa, 5855(1), 1–141. https://doi.org/10.11646/zootaxa.5855.1.1







