Em diferentes regiões do Brasil, povos indígenas têm recuperado terras transformadas em pastagens, degradadas pelo garimpo ou usadas como depósito de lixo, assumindo também o trabalho de restaurar a vegetação e restabelecer as condições para viver nesses lugares. São comunidades que avançam na direção contrária à das frentes de destruição: em vez de se limitarem a defender o que resta, passaram a lutar para retomar aquilo que foi perdido.
Destacamos aqui 10 reportagens publicadas pela Mongabay sobre como diversos povos indígenas do país, aliando tecnologia e saberes ancestrais, estão transformando seus territórios em lugares melhores para se viver.
Por que os Maxakali estão convocando os espíritos para recuperar a Mata Atlântica
Confinados em pequenas terras indígenas tomadas por pastagens no nordeste de Minas Gerais, os Tikmũ’ũn/Maxakali estão recuperando áreas de Mata Atlântica e implantando quintais agroflorestais por meio do projeto Hãmhi. Iniciada em 2023, a iniciativa forma e remunera agentes agroflorestais e viveiristas indígenas. O trabalho busca enfrentar a fome e recompor a vegetação necessária à vida cultural e religiosa do povo. A floresta é o lugar onde vivem os yãmĩyxop, povos-espíritos cujos cantos preservam o conhecimento sobre uma Mata Atlântica que já quase desapareceu na região.

Povo Xokleng restaura araucárias sagradas em terra indígena de Santa Catarina
Zág é como os Laklãnõ/Xokleng chamam a araucária — árvore para eles sagrada, cujas florestas hoje se reduzem a menos de 3% da área original. Vendo sua identidade desaparecer junto com esse ecossistema característico do Sul brasileiro, uma família da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ, em Santa Catarina, iniciou um projeto de restauração das araucárias. Desde então, a iniciativa já produziu mais de 140 mil mudas e reflorestou cerca de mil hectares. A iniciativa é uma resposta a um longo histórico de confinamento territorial dos Laklãnõ/Xokleng — da expulsão do Vale do Itajaí à construção da Barragem Norte.

Abolir as cercas, libertar a vida: povo Akroá Gamella retoma território ancestral e desativa lixão a céu aberto
Por mais de uma década, seringas, fraldas usadas e até tumores foram despejados dentro da Terra Indígena Taquaritiua, no Maranhão — sobre as nascentes de onde a aldeia Tabarelzinho bebia água. Em agosto de 2024, os Akroá Gamella decidiram que aquilo tinha ido longe demais: expulsaram à força o grileiro que ocupava a área havia quatro décadas e desligaram dois lixões municipais que funcionavam dentro de uma zona úmida protegida internacionalmente. As retomadas hoje restauram o território com práticas agroecológicas, reflorestamento de espécies nativas e recuperação de nascentes. Mas a violência continua.

Mulheres Krahô lideram guarda indígena para proteger território em Tocantins
Treze mulheres Krahô compõem o grupo de vigilância Mē Hoprê Catêjê para proteger os 303 mil hectares da Terra Indígena Kraolândia, no Tocantins, pressionada por madeireiros, caçadores, carvoarias e fazendas de soja e algodão. Durante quinze dias por mês, elas percorrem o território desarmadas, identificam sinais de invasão e encaminham as denúncias à Funai. A iniciativa nasceu da troca de experiências com outras guardiãs indígenas e segue protocolos baseados nos modos de vida Krahô. Além das ameaças externas, as integrantes enfrentam críticas dos homens de suas aldeias por deixarem temporariamente os cuidados domésticos para assumir funções de proteção territorial.

Kapinawás: meio século de luta pelo território sagrado no Vale do Catimbau
Até os anos 1970, ninguém no vale do Catimbau se dizia indígena — eram “caboclos”, sem nome nem terra reconhecida. Isso mudou em meio a uma guerra com grileiros, ocasião em que os moradores dessa área do agreste pernambucano encontraram uma escritura imperial na qual constava a doação daquelas terras aos seus antepassados indígenas. Cinquenta anos depois, surgiu a Terra Indígena Kapinawá, mas agora com um novo conflito: a criação do Parque Nacional do Catimbau, sobreposto ao território e limitando o acesso aos locais sagrados. Hoje, enquanto lutam para recuperar seus santuários, os Kapinawá desenvolvem um laboratório de recuperação da Caatinga, cultivando viveiros e plantando mudas por todo o território.

Jovens Yanomami recorrem a drones para vigiar seu território amazônico
Como vigiar, a pé e de canoa, um território do tamanho de Portugal? Foi essa pergunta que levou a Hutukara Associação Yanomami, em 2022, a apostar em algo inédito: ensinar jovens Yanomami e Ye’kwana a pilotar drones. A urgência decorria de uma invasão de 20 mil garimpeiros em 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro, que desencadeou uma crise humanitária. Poucos anos depois, a combinação do monitoramento por drones com operações de desintrusão empreendidas pelo governo Lula reduziu em 91% as áreas de extração de ouro na Terra Indígena Yanomami.

Como mulheres Bakairi revolucionaram o combate aos incêndios no Cerrado
O som lembrava chuva chegando — só que era fogo. Foi assim que os Bakairi descreveram o incêndio de 2018 que devastou parte de seu território em Mato Grosso, enquanto aguardavam socorro. Da tragédia nasceu uma brigada voluntária hoje formada, em sua maioria, por mulheres — de adolescentes a avós —, treinada por um bombeiro aposentado. O resultado: quatro anos seguidos sem grandes incêndios na Terra Indígena Santana. A poucos quilômetros dali, outro povo sem essa mesma estrutura viveu o oposto — prova de que, no Cerrado, ter ou não uma brigada pode ser uma questão de sobrevivência.

Povo Pataxó restaura áreas degradadas para formar corredor ecológico no sul da Bahia
No litoral onde os portugueses avistaram o Brasil pela primeira vez, uma cooperativa Pataxó passou quatro anos replantando o pau-brasil e mais uma centena de espécies endêmicas da Mata Atlântica. Foram 210 hectares recuperados no sul da Bahia, em áreas da Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, metade deles com financiamento inédito do BNDES para sistemas agroflorestais — um raro caso de dinheiro público chegando a um projeto pequeno e indígena. Por trás desse avanço, porém, há uma luta: dos 50 mil hectares já demarcados para os Pataxó ali, apenas 9 mil estão, de fato, em suas mãos.

Guerreiras da Amazônia mostram que igualdade de gênero e conservação da floresta andam de mãos dadas
Na Terra Indígena Caru, no Maranhão, as Guerreiras da Floresta combinam patrulhas com mapas e drones com um trabalho de educação nas escolas e nos povoados vizinhos, buscando reduzir as invasões e a exploração ilegal de madeira. Formado em 2014 por mulheres Guajajara, o grupo complementa a atuação dos Guardiões da Floresta num território de 173 mil hectares que abriga também os Awá-Guajá e conserva um dos últimos trechos contínuos de floresta amazônica no estado. Os números comprovam seu esforço: o desmatamento na Terra Indígena Caru caiu de 2 mil para 63 hectares em apenas dois anos.

Projeto de gestão indígena pode ajudar a conservar a onça-pintada
Lançado em 2025, o projeto Ywy Ipuranguete prevê apoio à gestão de quinze terras indígenas, abrangendo cerca de 6 milhões de hectares em cinco biomas brasileiros. A iniciativa reúne monitoramento territorial, restauração e atividades produtivas, com potencial para beneficiar a onça-pintada ao proteger seus habitats e presas. Na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, na Bahia, lar do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, lideranças relatam que o maior felino das Américas voltou a aparecer após a retomada de antigas fazendas e a regeneração da vegetação.
Imagem do banner: Joalson Maxakali, agente florestal do projeto Hãmhi na Terra Indígena Maxakali (MG). Foto: Xavier Bartaburu.






