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Data center pega de surpresa cidade mineira que sofre com falta d’água

redacao by redacao
11/09/2026
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Data center pega de surpresa cidade mineira que sofre com falta d’água
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  • A Atlas Renewable Energy está planejando um data center de 1 gigawatt no município de Paracatu, que supera a capacidade de energia combinada de todas as instalações desse tipo atualmente instaladas no Brasil.

  • O projeto corre o risco de esgotar nascentes frágeis do Cerrado em um município onde cerca de 80% do território enfrenta conflitos pela água e a demanda já supera 100% das reservas disponíveis de água subterrânea.

  • Autoridades locais e moradores afirmam que nunca foram consultados sobre o investimento bilionário, que só foi revelado a eles por meio de perguntas feitas por repórteres.

  • O projeto reflete uma tendência global de gigantes de tecnologia que buscam países ricos em recursos como o Brasil para alimentar um uso cada vez mais intensivo de água e energia por parte da IA.

Em uma tarde de maio de 2026, o presidente da Câmara Municipal de Paracatu, em Minas Gerais, Manoel Alves, pegou o telefone incomodado. Havia sido informado por repórteres de um projeto previsto para a cidade.

“Acabei de saber que a construção do data center vai começar em dois meses. Vocês também não estão sabendo nada sobre isso?”, perguntou a alguém da prefeitura. A resposta do outro lado da linha foi “não” — a mesma que a reportagem recebeu de todas as autoridades locais, empresários, agricultores e moradores para quem levou o assunto.

“É algum novo conceito de hotel?”, questionou a proprietária de um importante restaurante da cidade. “Um dentista?”, chutou um cidadão na praça principal de Paracatu. “Data center? O que é isso?”, perguntou o guardião de uma igreja do século 18.

Presidente da Câmara Municipal de Paracatu, Manoel Alves foi informado por repórteres sobre o plano de instalação de um data center na cidade. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e Intercept Brasil. 

O data center de Paracatu, município localizado a três horas de carro de Brasília, não é um data center qualquer. Vai ter a potência de 1 gigawatt, maior do que a soma total de todos os data centers atualmente instalados no país, que consomem cerca de 800 megawatts. É uma dimensão semelhante aos megaprojetos que fazem parte da iniciativa Stargate, nos Estados Unidos – uma das maiores redes de infraestrutura de inteligência artificial do mundo, apoiada pelo governo de Donald Trump.

O data center de Paracatu está sendo planejado pela Atlas Renewable Energy, empresa que já possui parques de energia solar no município e que pertence a uma subsidiária da gestora global de ativos financeiros BlackRock. O investimento em data centers repete uma estratégia do setor das energias renováveis no Brasil que é inédita no mundo, como mostramos em outra reportagem.

Entre os motivos citados pela Atlas para escolher Paracatu, cidade com cerca de 100 mil habitantes, está o fato de a cidade mineira, supostamente, possuir água em abundância.

“Dizer que tem muita água é controverso”, afirmou Almir Paraca, ex-prefeito de Paracatu. “Temos muitos conflitos hídricos de longa data no município e na região. Isso ocorre porque o uso da água excede a capacidade de vazão das nascentes.”

Data centers de inteligência artificial estão sob escrutínio em todo o mundo devido ao seu alto consumo de água e eletricidade. E o Brasil tem se apresentado como um importante polo para esses empreendimentos, disponibilizando sua abundância de recursos. “Nós temos condições de oferecer a outros países a oportunidade de construir data centers”, disse o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva em maio passado, antes de uma visita a Trump.

Paracatu tornou-se um exemplo extremo de um movimento que se repete no Brasil de norte a sul. Dados analisados pelo Intercept Brasil em parceria com a Mongabay indicam que pelo menos 68 data centers estão previstos para 37 municípios diferentes do país. Os projetos já solicitaram acesso à rede elétrica nacional, vários estão atualmente buscando clientes, e alguns já apresentaram a documentação necessária para obter o licenciamento.

Mas o país não possui uma regulamentação ambiental nacional específica para data centers, e a sociedade está sendo pega de surpresa pelos anúncios, sem tempo para discutir os projetos adequadamente antes da emissão das licenças, ao mesmo tempo em que descobre as consequências desse tipo de empreendimento.

“Um projeto desse porte, que começará a ser implementado em breve… como é que essa informação não está sendo divulgada?”, questionou Paraca, o ex-prefeito de Paracatu.

A Atlas divulgou seus planos em uma apresentação feita ao Ministério de Minas e Energia do Brasil, na qual solicitou autorização para que seu data center se conectasse à rede elétrica nacional. A infraestrutura está dividida em três módulos, tem previsão para começar a operar parcialmente em dezembro de 2027 e ser concluída até 2030.

Após questionamentos feitos por Mongabay e Intercept Brasil, a Atlas afirmou que o “projeto em questão encontra-se em uma fase de estudos muito preliminares e, por isso, não há qualquer definição técnica sobre ele” (leia a declaração completa aqui).

“Data center? What is this?” queried the guardian of an 18th-century church to reporter Naira Hofmeister, left. Image by Jerônimo Gonzalez/Mongabay and The Intercept Brasil.
“Data center? O que é isso?”, perguntou o zelador de uma igreja do século 18 à repórter Naira Hofmeister (à esquerda). Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e Intercept Brasil.

‘Em Paracatu, tinha água’

Paracatu está situada no coração do Cerrado, região que abriga uma rica biodiversidade. Graças à sua capacidade natural de absorver a chuva durante a estação úmida e de liberar a água lentamente por meio de nascentes, rios e cursos subterrâneos ao longo do ano, esse bioma é considerado o reservatório de água do Brasil.

Paracatu não é apenas o nome da cidade, mas também do rio que atravessa seu território — uma palavra em tupi que significa “rio bom” ou “peixe saboroso”, dependendo da fonte.

Com aproximadamente 300 quilômetros navegáveis , o Paracatu é o principal afluente do rio São Francisco. A cidade é ainda banhada por outro recurso hídrico fundamental, o rio São Marcos , e possui um território repleto de pequenos cursos d’água, as veredas , uma espécie de charco onde crescem palmeiras de buriti — conjunto que forma a icônica paisagem local.

Esse cenário parece ideal para um data center de IA, instalação que funciona ininterruptamente, com supercomputadores que armazenam e processam volumes enormes de informação. A água tem um papel crucial no resfriamento dos equipamentos, já que a dispersão do calor é essencial para evitar falhas, perdas de desempenho e riscos operacionais.

Mas, “em Paracatu, tinha água”, observou Sebastiana Neto, presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto da Colina, que vive ali há 57 anos. Como ela, muitos moradores se lembram de sua infância brincando nas veredas e fazendo piqueniques nas praias fluviais, em locais que hoje estão cobertos de concreto, asfalto ou lixões, sem nenhum vestígio de água.

Sebastiana Neto
Sebastiana Neto, presidente da Associação de Moradores do Bairro Alto da Colina, viu a água desaparecer de Paracatu com o passar dos anos. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e Intercept Brasil.

“Ali em cima tinha uma gruta com um poço azulzinho, onde a gente pescava e tomava banho”, acrescentou a moradora, apontando para a sua esquerda. “Antigamente, qualquer buraquinho que a gente furava no quintal tinha água. Mas agora tudo se foi, a água desapareceu.”

Na zona rural, a 50 km a leste da casa de Sebastiana, Fortunato Ferreira da Costa, conhecido como Natinho, observa a superfície do córrego Bezerra a seus pés. “A gente conhece esse riacho desde que nasceu”, contou Natinho, um ancião respeitado do quilombo Cercado. “Ele nunca secou, mas este ano vai secar de vez, vai virar poeira.”

Natinho apontou para o nível da água, mais baixo naquele mês de maio do que em anos anteriores — tanto que não chegava mais aos troncos das árvores próximas, como acontecia antes. “A estação seca mal começou”, disse.

Nestled within the Brazilian Cerrado, headwaters around Paracatu provide a vital ecological lifeline for a region deeply impacted by large-scale mining and agriculture. Image by Jerônimo Gonzalez/Mongabay and The Intercept Brasil.
Aninhadas no Cerrado brasileiro, as nascentes ao redor de Paracatu oferecem um suporte ecológico vital para uma região profundamente impactada pela mineração e agricultura em larga escala. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.
Fortunato Ferreira da Costa, known as Natinho, from the quilombo Cercado, feels the community water supply is in jeopardy. “It has never dried up. But this year it will definitely dry up; it will turn to dust.” Image by Jerônimo Gonzalez/Mongabay and The Intercept Brasil.
O quilombola Fortunato Ferreira da Costa, o Natinho, sente que o abastecimento de água da comunidade está em risco. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e Intercept Brasil.

Ali perto, o pequeno agricultor Eduardo Rodrigues de Araújo tem a mesma impressão ao olhar para o poço artesiano em seu pátio, localizado no assentamento Buritis da Conquista. Ele está preocupado porque, neste ano, está precisando cavar muito mais para encontrar água no solo. “Antigamente, numa época como esta, bastava cavar 1 metro”, relata. “Agora, olha só: o nível está a uns cinco metros de profundidade”, compara. Seu poço tem cerca de oito metros, e o agricultor teme que, no final da estação seca, ele e sua família tenham dificuldade para conseguir água potável.

A escassez de água não é apenas uma sensação entre a população. “Há restrições tanto para as águas subterrâneas quanto para as superficiais na região”, disse Tobias Tiago Pinto Vieira, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica dos Rios Paracatu e Urucuia.

Mineração e agronegócio já esgotam as nascentes

Sebastiana Neto mora a apenas alguns passos de um muro de 15 metros de altura que marca a divisa entre a área urbana de Paracatu e a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, a Morro do Ouro, propriedade da empresa canadense Kinross. Da janela de sua casa, ela testemunhou a transformação da paisagem em seu bairro nos últimos 50 anos: de uma pequena comunidade inserida no Cerrado a um buraco com 200 metros de profundidade e mais de quatro vezes o tamanho do parque do Ibirapuera, em São Paulo, segundo os dados mais recentes disponíveis. A mina que a Kinross explora no local é a mais pobre do mundo: são apenas 0,4 gramas de ouro por tonelada métrica de minério.

Desde o final dos anos 80, quando iniciou sua exploração, a mina cresceu junto ao córrego Rico, um recurso hídrico cujo nome está diretamente ligado ao ouro armazenado em seu leito. Hoje, poucas das características naturais desse córrego estão conservadas, e sua água está poluída com arsênio, de acordo com um relatório técnico de uma consultoria ambiental. O documento faz parte de um processo judicial que exige indenização da empresa pelos impactos causados pela mina às comunidades quilombolas locais que perderam seus territórios, ou parte deles, para a mineração.

À medida que o córrego Rico foi sendo alterado, outros cursos d’água também foram afetados. “A mineração depende de recursos hídricos para operar, por isso os córregos próximos à mina sofreram uma redução em sua vazão”, afirmou José Eduardo Trevisan Moraes , secretário de Meio Ambiente de Paracatu.

Paracá’s gold mine grew alongside streams. Today, very few of its natural characteristics remain, and its water is polluted with arsenic, according to a technical report. Image by Jerônimo Gonzalez/Mongabay and The Intercept Brasil.
A mina de ouro de Paracá cresceu ao longo de córregos. Hoje, pouco restou de suas características naturais e sua água está poluída por arsênico, segundo um relatório técnico. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.
Eduardo Rodrigues de Araújo's home
A casa de Eduardo Rodrigues de Araújo ilustra a realidade diária dos moradores presos em meio à rápida expansão industrial de Paracatu. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.

A Kinross afirmou, em um comunicado enviado à reportagem, que “o córrego Rico possui um histórico de impactos ambientais que antecede as operações da Kinross e está fortemente associado às atividades de garimpo que ocorreram ao longo de décadas na região”. A empresa disse ainda que tomou muitas medidas para melhorar as condições ambientais do córrego, o que resultou em uma “redução das concentrações de arsênio ao longo dos anos”. “Enquanto os monitoramentos realizados em 1985 e 1986 registraram concentrações elevadas, os resultados obtidos a partir de 2015 já indicavam melhoras significativas com valores inferiores aos limites de referência estabelecidos pela legislação ambiental vigente”, afirma a nota (leia a íntegra).

A comunidade quilombola local também alega que uma grande expansão da mina ao longo de 15 anos rebaixou o lençol freático do aquífero local e transformou seu território, chamado Machadinho, em um imenso lago de resíduos de mineração. “Mesmo que a mineração cessasse hoje, o reequilíbrio das bacias hidrográficas levaria no mínimo de 100 a 200 anos para atingir uma nova estabilidade natural”, afirma o relatório que integra a ação judicial.

“Não podemos mais voltar para casa porque nossa terra se tornou inóspita”, queixa-se Gilvan de Oliveira , um dos moradores do quilombo que deixou sua casa na comunidade e se mudou para a cidade. “Não há água doce. Os vales foram soterrados. A serra e os campos, onde costumávamos cultivar nossas plantas medicinais, onde ficavam as árvores frutíferas — o pequi, a mangaba, a guabiroba —, tudo isso está soterrado ou se transformou em uma cratera gigante. Como alguém pode viver em uma cratera como essa? Está tudo inabitável, tudo envenenado, tudo destruído”, lamenta.

A Kinross reconhece que a redução do lençol freático é uma “prática comum em operações de mineração a céu aberto”, mas diz que possui autorização para isso e apresenta relatórios regulares sobre a vazão e a qualidade da água às autoridades. “Do ponto de vista do abastecimento público, é importante salientar que o fornecimento de água à população de Paracatu provém aproximadamente 95% da bacia do ribeirão Santa Izabel, a qual não se encontra sob influência das operações da Kinross”, afirmou a empresa.

Se, nas áreas urbanas, a água de Paracatu foi afetada pela expansão da mineração, na zona rural, as fazendas registraram aumento no consumo de água em virtude da adoção de pivôs de irrigação — equipamento com um longo braço pulverizador que gira em torno de um ponto fixo central para irrigar as lavouras. O sistema começou a ser implantado na década de 1970 , com um projeto apoiado pelo governo federal que visava transformar essa região em um polo de agricultura irrigada de alto rendimento, mas se expandiu além do plano original.

“O município de Paracatu possui atualmente 86 mil hectares de terras agrícolas irrigadas, abrangendo as bacias hidrográficas de seus dois rios, o Paracatu e o São Marcos”, explicou Vieira.

É uma área maior do que a cidade de Campinas, em São Paulo, que capta água de fontes próximas e a bombeia para os campos, possibilitando várias safras mesmo nos períodos de seca no Cerrado. O custo ambiental, porém, é alto, segundo um estudo. “O uso intenso da bacia [do Paracatu] para irrigação contribuiu significativamente para a situação de diminuição da vazão do rio, causando grandes conflitos”, escreveram os autores.

Gilvan Lopes de Oliveira
“Não podemos mais voltar para casa porque nossa terra se tornou inóspita”, disse Gilvan Lopes de Oliveira, um morador local que deixou sua casa na comunidade quilombola e se mudou para a cidade. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.

Kinross’ open-pit mine in Paracatu

80% de Paracatu sofre com conflitos hídricos

Dizer que a irrigação causou “conflitos” não é algo meramente abstrato: desde 2006, o governo estadual de Minas Gerais declarou formalmente 110 áreas de conflito hídrico no estado, de acordo com dados de 2024. Isso significa que, nessas áreas, é impossível obter uma licença individual para o uso das águas superficiais. “As áreas de conflito hídrico em Minas Gerais não significam necessariamente uma briga entre eu e você. É uma disputa — há mais demanda por água do que água disponível”, explicou Vieira.

No total, os conflitos hídricos em Minas Gerais abrangem 26 mil quilômetros quadrados. Nessas áreas, cada usuário individual precisa se associar a um comitê de gestão coletiva para negociar com os demais a quantidade de água que cada um pode retirar, especialmente durante as secas.

O estado também declarou 39 quadrantes como áreas de restrição e controle de águas subterrâneas, nas quais o lençol freático está se esgotando como fonte para poços — 35 desses 39 pontos são locais em que a demanda já ultrapassou 100% das reservas.

Como mostra um mapa publicado pelas autoridades mineiras, as áreas de restrição hídrica estão localizadas principalmente no oeste do estado, onde fica Paracatu. Cerca de 90% do território de Minas Gerais está livre de conflitos hídricos. Em Paracatu, esse índice não chega a 20%.

Espera-se que o data center da Atlas seja instalado no mesmo terreno onde “os projetos da Atlas estão atualmente em operação e/ou em desenvolvimento na região de Paracatu”, de acordo com os planos apresentados pela empresa ao governo brasileiro. Isso corresponde a uma área localizada a 30 km do bairro urbano de Sebastiana Neto e a cerca de 15 km do quilombo Cercado e do assentamento Buriti da Conquista, na zona rural.

As coordenadas informadas ao governo situam os data centers exatamente no limite da área de conflito hídrico do córrego do Engenho Velho e a 6,4 km de uma zona com restrição de 100% ao uso de água subterrânea que se sobrepõe a outra área de conflito.

“As nascentes já estão esgotadas, simplesmente não aguentam mais”, disse Jueli Cardoso Jordão, engenheiro que trabalha com planejamento e gestão de atividades agrícolas. Jordão critica a mera possibilidade de se pensar em aumentar a demanda, “especialmente porque já existe um plano de gestão hídrica em vigor para reduzir o consumo nessa região.”

Tobias Tiago Pinto Vieira
“Há restrições tanto para águas subterrâneas quanto para superficiais na região”, afirmou Tobias Tiago Pinto Vieira, presidente do Comitê da Bacia dos Rios Paracatu e Urucuia. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.

A Atlas não divulgou nos documentos, nem à reportagem, a quantidade de água necessária para seus projetos nem de onde iria retirá-la. “Dependendo de onde o data center for captar água, ele terá que entrar nessas zonas de conflito e seguir um procedimento muito específico para determinar se pode ou não usar água. Pode ser que nunca consiga”, disse Vieira.

Mesmo no melhor dos cenários, em que o data center seria abastecido por água de fora das zonas de conflito hídrico, há preocupações. “O controle do governo sobre as concessões hídricas é extremamente fraco”, disse Paraca, o ex-prefeito. “Há áreas onde as pessoas têm uma licença individual de água, mas ainda assim não conseguem usá-la porque o volume é muito baixo — um sinal de que outros usuários estão retirando mais água do que o autorizado”.

O data center de 1 gigawatt da Atlas em Paracatu pode consumir até 1,2 milhão de litros de água por dia, quando atingir sua capacidade máxima, para operar dentro dos padrões de eficiência estabelecidos no Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, projeto de lei aprovado pelo Senado no dia 1º de setembro que prevê conceder incentivos fiscais a data centers mais eficientes no consumo hídrico. No total, esse consumo representa 438 milhões de litros por ano, supondo que o data center atinja o limite de referência proposto no projeto — volume suficiente para abastecer a população de Paracatu por um mês.

Em seu comunicado, a Atlas Renewable Energy afirmou que, “como premissa inegociável da companhia, a tomada de decisão sobre o avanço de qualquer projeto considera rigorosamente o impacto local, a disponibilidade de recursos e a viabilidade socioambiental da região”.

Massive irrigation systems draw heavily on local water resources to sustain expansive agribusiness operations across the region's dry landscape.
Sistemas de irrigação em grande escala consomem fortemente os recursos hídricos locais para sustentar as operações de agronegócio em expansão ao longo da paisagem árida da região. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.
Jueli Cardoso Jordão
“As nascentes já estão esgotadas, simplesmente não aguentam mais”, disse Jueli Cardoso Jordão, engenheiro que trabalha com planejamento de atividades e gestão agrícola. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.

Novos painéis solares alimentam data centers

Uma das usinas de energia solar da Atlas em Paracatu fica do lado esquerdo de uma estrada local em más condições que liga a área urbana ao quilombo Cercado e ao assentamento Buritis da Conquista. Chamada de Complexo Solar Luiz Carlos, ela conta com mais de 1.300 hectares de painéis solares e uma estação de energia e está em operação. O complexo abastecerá as novas instalações do data center do outro lado da estrada.

A área que abrigará o novo empreendimento é, atualmente, um terreno baldio. Até julho de 2030, porém, o local deve abrigar 13 edifícios repletos de supercomputadores projetados para processar dados para “grandes players globais de IA e cloud”, entre outras aplicações. Para construir o data center de 1 gigawatt, a Atlas investirá 35 bilhões de reais.

Por trás do projeto está uma estratégia que várias empresas de energia que operam no Brasil estão adotando: criar demanda para suas próprias usinas. A Atlas informa que precisou reduzir a geração de energia em um de seus complexos de Paracatu em quase 40% em 2025 devido aos cortes obrigatórios impostos pelas autoridades para equilibrar o excesso de oferta. Os data centers, que consomem muita energia, tornaram-se uma solução para essas empresas.

O Complexo Solar Luiz Carlos, ao qual o data center estará conectado, no entanto, tem uma capacidade instalada de 661,5 MW. Provavelmente, será necessário expandir os painéis solares para gerar mais eletricidade e abastecer o data center de 1 gigawatt.

A empresa já possui uma licença ambiental para desenvolver uma nova usina de energia solar no mesmo local. A Atlas também solicitou uma licença para um data center de 1 gigawatt em Janaúba, que fica em uma região ainda mais árida de Minas Gerais, no bioma da Caatinga, e está planejando uma unidade na região metropolitana de Belo Horizonte.

“Talvez Janaúba tenha um problema hídrico ainda mais grave, já que, de fato, está localizada em uma região semiárida. Se você for até lá, vai passar por muitos cursos d’água completamente secos”, disse Paraca.

Almir Paraca
“Temos muitos conflitos hídricos de longa data no município e na região”, disse Almir Paraca, ex-prefeito de Paracatu. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e The Intercept Brasil.

Parque preserva água e umidade

Paracatu vem se empenhando para melhorar a segurança hídrica da comunidade. Recentemente, o Parque Estadual de Paracatu, uma unidade de conservação criada em 2011 como compensação ambiental pelos danos causados pela Kinross, incorporou em seus limites as nascentes que abastecem o município.

“É uma nascente de brejo, que jorra de vários pontos diferentes”, explica Paulo Bruno Pereira Brito, monitor ambiental do parque. “Não é como uma fonte que jorra de um único ponto. O brejo brota de vários pontos e, aos poucos, forma uma lagoa.”

Antes de se tornar um parque, a nascente havia sido represada e era um local de pesca. Muitos moradores pescavam no local, que era aberto e de fácil acesso, mas isso não é mais permitido. “Hoje, o recurso hídrico está protegido”, disse Brito.

Olhando do solo, a nascente é cercada pela mata e abriga aves do Cerrado. Mas, na visão aérea captada por um drone, avistam-se plantações e sistemas de irrigação a apenas 500 metros, fora dos limites do parque.

Dentro da área mais densa da mata, outros pequenos riachos estão sendo preservados, mas a expansão do agronegócio está gerando novas áreas de desmatamento ao redor, o que pode colocar o parque em risco.

“Quando se desmata o Cerrado, a água da chuva que costumava se infiltrar lentamente no solo começa a escorrer, transforma-se em enxurrada e leva tudo embora”, disse Paraca. “Sem vegetação, o solo — que aqui é muito arenoso — fica exposto e sofre erosão com muita facilidade e rapidez. Isso está destruindo os cursos d’água em toda a região, e é por isso que a seca do semiárido do Nordeste está se espalhando para Minas Gerais.”

Paulo Brito, left, and his colleague Edney Moraes
Paulo Brito (à esq.) e Edney Moraes são guardas do Parque Estadual de Paracatu, unidade de conservação criada em 2011. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e Intercept Brasil.
Bordering the urban neighborhoods of Paracatu, the massive open-pit gold mine serves as the region's primary economic engine, while remaining a focal point for ongoing environmental and health controversies. Image by Jerônimo Gonzalez/Mongabay and The Intercept Brasil.
Vizinha aos bairros urbanos de Paracatu, a gigantesca mina de ouro é motor econômico da região e fonte de problemas ambientais e de saúde. Foto: Jerônimo Gonzalez/Mongabay e Intercept Brasil.

No parque, Paulo Brito e seu colega Edney Moraes (ou “Timão e Pumba”, dos filmes “O Rei Leão”, da Disney, como eles mesmos se descrevem) estão fazendo seu trabalho, incluindo a prevenção de incêndios. “Vejo progresso entre os pequenos agricultores aqui na região, ao redor do parque”, disse Moraes. “Eles até nos avisam quando há um incêndio nas proximidades, para que possamos impedir que ele se espalhe.”

Houve um grande incêndio na área em 2016, quando a unidade de conservação ainda estava sendo implantada. “Imagina se acontece um incêndio aqui dentro do parque, como seria. Acaba tudo, até a água. Se queima, ano que vem não vai ter um um broto de água mais. Nem quero pensar nisso”, disse Brito.

Esta reportagem foi publicada em parceria com The Intercept Brasil e produzida com o apoio do AI Accountability Network do Pulitzer Center.

Imagem do banner: ilustração de Giovana Abreu/Intercept Brasil.







Fonte de Matéria – https://brasil.mongabay.com/2026/09/data-center-pega-de-surpresa-cidade-mineira-que-sofre-com-falta-dagua/

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