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Falta de dados trava combate a crimes ambientais em Angola, diz ambientalista

redacao by redacao
27/08/2026
in Últimas Notícias
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Falta de dados trava combate a crimes ambientais em Angola, diz ambientalista
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  • Érica Tavares lidera a ONG EcoAngola e, aos 29 anos, representa uma nova geração de ambientalistas do país.

  • Ela defende mais monitoramento, fiscalização especializada e soluções energéticas para reduzir o desmatamento ilegal em Angola.

  • Segundo a ambientalista, as estratégias e os planos do governo continuam a ficar muito aquém daquilo que os angolanos precisam para responder aos desafios ambientais.

Angola enfrenta importantes desafios ambientais e o governo tem assumido compromissos em fóruns internacionais, como a implementação do Protocolo de Montreal e da Emenda de Kigali, com enfoque na eliminação progressiva dos hidroclorofluorcarbonetos (HCFCs) em 2030 e na redução dos hidrofluorcarbonetos (HFCs) em 80% em 2045. 

Apesar disso, as crises climáticas, como secas prolongadas que afetam a região Sul do país, a degradação dos solos e as inundações provocadas por chuvas intensas continuam a causar impactos sociais e econômicos significativos. Estima-se que mais de 2,2 milhões de pessoas sejam afetadas por estes fenômenos. 

É neste contexto que ganha relevância a voz de uma nova geração de ambientalistas angolanos. Entre eles está Érica Tavares, de 29 anos. Ela estudou biologia ambiental na Universidade de Nottingham, no Reino Unido, e hoje se dedica à conservação ambiental e à mobilização da juventude em Angola. É cofundadora da organização não governamental (ONG) EcoAngola e tem estado na linha da frente da defesa das florestas, da educação ambiental e da participação dos jovens nos debates sobre sustentabilidade.

Em entrevista à Mongabay Brasil, Érica comenta sua trajetória como ambientalista e os problemas ambientais que mais a preocupam.

Mongabay: Como você descreveria a situação  do meio ambiente em Angola em 2026? Está melhor ou pior do que há cinco anos?

Érica Tavares: É sempre difícil responder a essa pergunta, que me é feita muitas vezes, porque um dos grandes desafios que nós temos é a análise de dados e informação [que não existem]. Para fazermos uma análise comparativa do agora e do há cinco anos, precisaríamos olhar para os diferentes dados em termos de poluição, números sobre as reservas de água, biodiversidade e até sobre as necessidades sociais, que também têm grande relevância quando se fala de meio ambiente. 

Mas se nós formos pensar [além da barreira da ausência dos dados], portanto, por parte da sociedade civil, há sim mais atividades, mais organizações, mais financiamentos e isso é um ponto positivo. 

Mas, os problemas continuam a aumentar, porque continuamos ainda com pouca ou nenhuma fiscalização, continuamos com pouca responsabilização, também daqueles que cometem danos ou crimes ambientais. 

As estratégias e os planos continuam a ficar muito aquém daquilo que nós precisaríamos para responder aos desafios ambientais, então é muito difícil fazer essa análise. Por ser uma pessoa otimista, tento também ter sempre alguma esperança. Especialmente também pelo trabalho que desenvolvemos, que é mesmo tentar fazer alguma coisa no meio disso tudo. 

Há cinco anos ouvia-se muito menos, havia menos sensibilidade, havia menos interesse, hoje há mais interesse, hoje há mais movimento, mas é preciso, de fato, ações nacionais, não apenas ações pontuais para nós podermos mudar e responder às necessidades. 

Em que momento você percebeu que queria dedicar-se à defesa do meio ambiente e tornar-se uma voz da sociedade civil nesta área?

Houve momentos que me marcaram durante a minha adolescência quando eu própria fui impactada por uma enchente dentro de casa e cresci com muitas perguntas que não conseguia ver respondidas, nem pesquisando, nem conversando, nem perguntando aos meus pais. 

E depois, durante a universidade, quando eu descubro o meu curso em Biologia Ambiental, começo a estudar a poluição, ciência animal, ciências das plantas, começo a ter respostas sobre tudo aquilo que questionei durante a minha infância.

Por que é que um bairro é mais pobre e o outro é mais rico? Por que é que quando chove aqui, enche, e noutro lugar não? Por que é que um sítio está a queimar e outro não está? O que acontece com os animais? Por que é que num sítio há seca e fome e noutro não?

Foi nesse processo de procurar responder a essas perguntas que acabei também por encontrar algumas soluções e por sentir vontade de comunicar, de falar sobre o meio ambiente. E foi aí que nasceu esta ambientalista.

Não foi uma coisa do género: “O meu objetivo é ser ambientalista.” Mas, de certa forma, eu sempre caminhei para isso. A vida foi-me orientando. 

Ao representar Angola na Conferência de Juventude pelo Clima da ONU, em 2021, e ao liderar o Hackathon Ambiental da Semana Verde, em 2026, você teve contato com jovens de diferentes regiões e contextos do país. O que estas experiências lhe revelaram sobre a forma como a juventude angolana encara os desafios ambientais? Houve uma mudança significativa na consciência ambiental dos jovens nos últimos anos?

Essas experiências, na verdade, revelaram algo mesmo muito importante, as diferenças de contexto e as diferenças de realidade. Na Conferência para a Juventude, na Itália, em 2021, pude ter contato com vários ambientalistas de outros países, maioritariamente países nórdicos (Dinamarca, Suécia, Noruega etc) e as mensagens, a forma de comunicar, as prioridades deles, são um bocado diferentes das nossas. 

Não estou dizendo que a missão é diferente, porque a missão ambiental é única e coletiva, mas as prioridades dessa missão eram bastante diferentes. Há uma diferença entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. Num país desenvolvido, os jovens têm acesso à internet, têm acesso a um computador, conseguem fazer uma investigação,  pronunciar-se de forma segura ou contestar políticas públicas. Conseguem ainda fazer uma denúncia e também chegar à responsabilização ou à mudança, a advocacia é diferente. 

Um jovem em Angola muitas vezes não tem acesso a um telefone, ao computador, à internet. Muitas vezes é ignorado, coloca  a sua vida em risco. Quando comunica sobre uma coisa,

ele é o único e todo mundo o questiona e o critica. Então é muito diferente a forma como o jovem aqui reage e atua sobre as temáticas ambientais. E depois também são as prioridades. Temos em Angola muitos desafios, como fome e pobreza,  acesso à educação e desequilíbrio de acesso para os diferentes gêneros. E lá alguns desses desafios já foram ultrapassados. Eles também têm novos desafios, não significa que lá esteja tudo bem, mas são de fato prioridades diferentes e posicionamentos diferentes, acessos diferentes e certamente com resultados diferentes. 

Qual é o problema ambiental que mais te preocupa?

Eu acho que o principal problema é a poluição, especialmente a poluição causada pelos resíduos e, em particular, pelos resíduos plásticos. Nós estamos, de fato, a consumir cada vez mais e não estamos a conseguir tratar os resíduos plásticos de forma adequada. Infelizmente, estes resíduos têm um impacto muito grande a longo prazo.

O plástico demora muito tempo para se desfazer, entra na água, nós respiramos plástico, comemos plástico e, a longo prazo, todos nós estamos a colocar a nossa saúde em risco, como a fertilidade dos homens e das mulheres. Os bebês já nascem com microplásticos no organismo. Nós já temos plástico no nosso corpo e acredito que só daqui a alguns anos a humanidade vai perceber verdadeiramente a gravidade do que isto significa.

Depois, há outro fator que torna este problema ainda mais grave: a falta de fiscalização. Falta fiscalização para os produtores, falta responsabilização dos consumidores e tudo isso, em conjunto, acaba por aumentar a dimensão deste desafio.

A EcoAngola denunciou casos de desmatamento ilegal nas províncias do Huambo e Benguela, alegadamente conduzidos por cidadãos estrangeiros sob o silêncio das autoridades locais. Esses casos foram investigados? Houve consequências concretas?

Temos dificuldade em dar seguimento a algumas das denúncias que fazemos porque nem sempre conseguimos respostas das autoridades ou, às vezes, quando conseguimos, é mais para baixar o barulho, para manter as coisas mais calmas.

Temos feito um esforço para criar também um mecanismo que nos permita dar seguimento aos casos. Mas uma das grandes dificuldades é o fato de sermos uma associação não governamental e recebermos pouco apoio do público. Apesar da nossa agenda ser de interesse público, a verdade é que a sociedade civil ainda está muito desligada daquilo que são as políticas públicas e do apoio necessário para que as ONGs possam ter esta força.

Isso torna tudo muito difícil. Além disso, dar seguimento aos casos implica custos: temos de verificar informações, investigar e, muitas vezes, colocamo-nos a nós próprios em risco, sobretudo quando se trata de temas mais sensíveis. Isso acaba por ser um desafio. Não significa que não o façamos, mas é, de fato, um grande desafio.

O que estamos a tentar fazer é criar esta confiança com o público, fazendo-o perceber que também tem de agir em relação a esta agenda coletiva.

Quais são os desafios no combate ao desmatamento ilegal em Angola?

A nível nacional, ainda não dispomos de um sistema de monitoramento  florestal. Poderíamos utilizar, por exemplo, satélites e outras ferramentas de informação digital para nos ajudar a avaliar a situação e obter dados em tempo real, permitindo que as autoridades dessem uma resposta mais rápida.

Há também um certo desligamento entre o Instituto de Desenvolvimento Florestal e a própria Polícia Nacional, que é quem deve dar resposta e acompanhar estes casos. Deveríamos ter uma polícia fiscal ambiental, especializada, para garantir a continuidade e o acompanhamento dos processos até à responsabilização.

Certamente, se acrescentarmos estes mecanismos, conseguiremos travar melhor o desmatamento.

Depois, há uma outra dimensão do desmatamento que não acontece apenas para fins comerciais, como a extração de madeira de elevada qualidade utilizada na fabricação de mobiliário, por exemplo. Existem também o corte e o abate de árvores para produção de energia. Muitas comunidades ainda não têm acesso à eletricidade e dependem da lenha para cozinhar e para outras necessidades básicas. E, portanto, há aqui desafios sociais que também têm um impacto muito grande nesse desmatamento, então nós temos que olhar para isso tudo e tentar responder.

Angola tem assumido compromissos climáticos internacionais na COP e em outros fóruns. Na prática, o governo consegue fazer com que esses compromissos cheguem efetivamente às comunidades mais vulneráveis?

Eu diria que já fui muito mais crítica, mas hoje tento olhar para as diferentes perspetivas. Sabemos que ainda há muitas carências. Continuamos com números muito elevados em termos de pobreza, de acesso a oportunidades e fome.

Uma das áreas em que tenho visto o governo insistir mais é no setor agrícola e pecuário, até porque cerca de 70% da nossa agricultura está baseada na produção familiar. Tenho observado vários programas direcionados para apoiar esse setor.

Mas, olhando especificamente para a vertente climática, é apenas agora que começamos a ver alguma integração das questões climáticas nos novos planos e financiamentos. Ainda falta muita sensibilização, tanto por parte do governo como das pessoas que irão se beneficiar, ou que deveriam se beneficiar dessas políticas. Muitas dessas pessoas são precisamente as mais vulneráveis e as mais afetadas pelas consequências das alterações climáticas.

É difícil responder de forma categórica sobre o impacto na prática. Mais uma vez, não temos relatórios que nos permitam avaliar dados de forma consistente. Muito do que dizemos baseia-se na experiência de quem está no terreno, muito pela observação, e tiramos algumas conclusões. É com base nessas observações que respondo a esta pergunta.

A educação ambiental ainda continua a ser prioridade?

É uma necessidade urgente e prioritária. Olhando para a agenda política, não deveria ser um assunto tão complexo, até porque já existe algum conteúdo de educação ambiental formal integrado no currículo nacional. Mas, esse conteúdo ainda está muito distante daquilo que realmente precisamos.

O Ministério da Educação e o Ministério do Ensino Superior deveriam assumir essa realidade e atualizar esses conteúdos, olhando para o contexto atual do país, para as iniciativas que vão surgindo e para a necessidade de mostrar que é desde pequeno que nós devemos fazer a diferença para que as próximas gerações sigam uma outra forma de agir e não é isso que estamos a fazer. 

Continuamos a formar angolanos — e todos os residentes que vivem no país — com uma mentalidade que não promove a responsabilidade ambiental. Falamos de reciclagem quando muitas vezes não existem pontos de coleta; ensinamos que não se deve deitar lixo na rua, mas as próprias escolas, em muitos casos, nem sequer dispõem de saneamento básico e não conseguem ser exemplo.

Por isso, torna-se muito difícil transformar conhecimento em prática. Estamos ainda muito aquém do necessário e precisamos de políticas públicas que sustentem verdadeiramente a educação ambiental.

Como cofundadora da Comunidade Científica Jovem de Angola, que mensagem gostaria de deixar aos jovens?

Crescer em Angola é difícil. Mas será ainda mais difícil se não fizermos nada.

Nós, jovens, temos de olhar para o nosso país com sentido de responsabilidade. Enfrentamos muitos desafios no dia a dia: o trânsito, a falta de emprego, a ausência de estabilidade e até dificuldades no acesso à educação. O jovem angolano enfrenta muitos obstáculos até para estudar.

E é exatamente por isso que temos uma responsabilidade ainda maior: contribuir para que as próximas gerações tenham outras prioridades, não as [mesmas] que nós temos hoje. 

Há muito trabalho de base que precisamos fazer. E a mensagem principal é encontrarmos as pessoas certas para fazermos isso, o jovem tem que colaborar, investir na sua formação e estudar. Essa deve ser uma prioridade, para que possa tornar-se um adulto produtivo, qualificado, consciente do que quer e com um caráter sólido.

Para quando chegar a nossa vez de liderar, teremos condições para fazer melhor e de forma diferente.

Imagem do banner: Érica Tavares, ativista ambiental angolana e cofundadora da ONG EcoAngola. Foto: EcoAngola. 







Fonte de Matéria – https://brasil.mongabay.com/2026/08/falta-de-dados-trava-combate-a-crimes-ambientais-em-angola-diz-ambientalista/

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