-
Coletoras de mariscos do litoral sergipano relatam perda de acesso aos manguezais e queda na quantidade de moluscos e crustáceos, enquanto obras urbanas e expansão imobiliária avançam sobre áreas onde vivem e trabalham.
-
O Movimento das Marisqueiras de Sergipe surgiu no contexto de um programa de educação ambiental financiado pela Petrobras como condicionante do licenciamento. Hoje, suas lideranças reivindicam direitos, reconhecimento profissional e maior autonomia em relação a essa estrutura.
-
A redução da mariscagem também atinge o corpo e os saberes dessas mulheres: elas relatam passar mais horas na lama para coletar menos, enquanto práticas como os cantos usados na captura do aratu deixam de ser transmitidas em algumas famílias.
Vemos metade do corpo de Adriana Hora dos Santos fora d’água: o cabelo escuro preso numa trança única, braços e tórax cobertos pela blusa de lycra cor-de-rosa. A lama do mangue onde pisa chega à altura das coxas. Com um facão de pouco mais de 40 centímetros, ela tira dezenas de ostras das raízes retorcidas, num ritmo cadenciado: nem muito rápido, nem muito devagar.
Na margem oposta ao rio Vaza-Barris, os prédios de Aracaju, capital de Sergipe, parecem de outro mundo. Aqui, só ouvimos o marulho da água, o golpe da lâmina e a voz de Adriana: Sou, sou Marisqueira / Rainha do mangue, sou guerreira! / Sou, sou Marisqueira / Mulher de luta, batalhadeira / É o vento que me dá / É o rio, é o mangue, é o mar / Dói o peito, rio cercado / Dói o peito não ter pescado / Vem, mulher, lute, emancipe / Somos as marisqueiras de Sergipe!
É o hino do Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS), coletivo auto-organizado de mulheres que há anos resiste a um processo contínuo de degradação ambiental e apagamento cultural. Atuando como guardiãs do mangue, realizam um trabalho de conservação ambiental ao mesmo tempo em que enfrentam ameaças que colocam em risco sua sobrevivência.
Escutar uma marisqueira é escutar muitas: os verbos quase vêm sempre no plural. “Sempre estamos em bando”, diz Adriana. E foi em bando que fomos apresentados ao mangue.
O mangue como refúgio
O dia começa conforme o horário da maré e só termina depois que os baldes estiverem cheios. Hoje estamos de barco, mas às vezes é a pé ou de bicicleta. São horas de deslocamento e espera na lama. Uma vez dentro do mangue, as marisqueiras ganham movimentos anfíbios, já que é difícil definir as fronteiras entre terra e água nesse ecossistema.
Antes de entrar, nos avisam que é preciso se preparar: calça comprida, camiseta com proteção solar, chapéu, meias grossas até a canela e uma espécie de calçado criado por elas mesmas, costurado a partir de pedaços de calça jeans. “É um tecido mais grosso, que protege os pés de se cortar nos pedaços de marisco, especialmente ostra”, explicam. Completam o equipamento o balde, o facão, a vara e, às vezes, o jereré — uma rede em forma de cone. Tecnologias sociais que facilitam o trabalho, mas não aplacam o esforço.
“O povo acha caro o massunim a 40 reais, mas não entende o que a gente passa. É todo um processo, de horas e horas”, argumenta Adriana a respeito do molusco que no Sudeste é chamado de vôngole. Um processo que começa no trabalho da cata e segue com tudo o que envolve o beneficiamento: higienização, conservação e preparo do produto para venda ou consumo. Em geral, o marisco é cozido ou assado no fogo à lenha, para economizar gás de cozinha.
Isoladas nos manguezais ou nas croas (bancos de areia que emergem no leito de rios ou praias durante a maré baixa ou seca), as marisqueiras ficam expostas não só aos perigos da natureza — sol, umidade, galhos, insetos — mas também a outros tipos de violência, inclusive a masculina. Por isso, andar em grupo, além de ritual, é estratégia de sobrevivência, cuidado e acolhimento.
A violência permeia a vida de quase todas essas mulheres e a das múltiplas gerações anteriores. Uma violência que começa, inclusive, em casa. Não surpreende, então, que muitas descrevam o mangue como refúgio. A mãe de Adriana, por exemplo, se separou do marido que abusava do álcool e passou a sustentar a família. Criou os dez filhos catando mariscos e cozinhando pra fora.
“Naquele tempo era uma fartura. A gente encontrava de tudo [no mangue] e voltava feliz, porque todo mundo vinha com as vasilhas e baldes cheios”, relata. Era uma panela cheia de aratu, outra de caranguejo, outra de siri, e ainda tinha o massunim e o sururu. A avó, as irmãs, tios e tias, todo mundo morava perto do Vaza-Barris. “O povo vivia de roça e maré. Isso aqui tudo era sítio, arrodeado de água. Não estava aterrado desse jeito”. Plantava-se batata, macaxeira, coco e inhame. O que se colhia, comia. O que sobrava, além dos mariscos, era levado de barco até o mercado central de Aracaju.
Estamos em Areia Branca, região que já foi um povoado tradicional de pescadores e lavradores ao sul da capital sergipana. Até 2021, fazia parte da chamada Zona de Expansão de Aracaju, um nome genérico que a prefeitura extinguiu ao elevar Areia Branca e outras cinco antigas localidades vizinhas, como Mosqueiro e Robalo, à categoria de bairro. Hoje ligada ao centro pela Avenida Melício Machado, a região recebe grandes obras de pavimentação, drenagem e urbanização da administração municipal. É onde está a Ribanceira, uma das últimas praias de rio limpas e preservadas da capital. O outro grande rio que banha a capital, o rio Sergipe, sofre com um processo contínuo de poluição desde a segunda metade do século 20.
“Eu acho que essa história de uma vida melhor na cidade é pura fake news. Coisa de televisão. É bem melhor estar aqui”, diz Adriana, orgulhosa de ter aberto há pouco seu próprio estabelecimento, uma petiscaria próxima à Ribanceira — até porque não consegue mais se sustentar só da mariscagem.
Se antigamente parte da população ribeirinha saía dos povoados para a cidade em busca de melhores condições de vida, já que ali não tinha muitas oportunidades de emprego, hoje em dia o cenário é outro. “Sinto que somos forçados a sair pelos empreendimentos. E o próprio rio, que não tá dando quase mais nada [de peixes e mariscos]. É que o rio já não é mais nosso.”


Como tudo começou: o Peac e a origem do movimento
A história do Movimento das Marisqueiras de Sergipe está ligada ao Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (Peac), uma exigência legal imposta pelo Ibama à Petrobras como condição para a empresa manter as licenças ambientais de exploração de petróleo e gás na Bacia de Sergipe-Alagoas. Na prática, funciona como uma contrapartida: para continuar explorando o mar, a Petrobras é obrigada a financiar um trabalho de educação ambiental voltado às comunidades tradicionais que vivem na área afetada por essa atividade.
Hoje o programa é executado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), por meio de convênio com a Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (Fapese), e abrange 95 comunidades tradicionais espalhadas por dez municípios do litoral sergipano, além de Conde e Jandaíra, na Bahia — um mapa que não segue divisas estaduais, mas a rota que o óleo faria se vazasse. Entre pescadores, marisqueiras, catadoras de mangaba e outras populações ribeirinhas, o objetivo declarado do Peac é enfrentar, por meio de alternativas pedagógicas e populares, os impactos socioeconômicos causados, direta e indiretamente, pela exploração de petróleo e gás no mar.
Foi dentro dessa estrutura que, a partir de um diagnóstico de vulnerabilidades feito entre 2013 e 2014, nasceu o projeto voltado às mulheres marisqueiras, embrião do que hoje é o MMS. A análise revelou que os impactos da cadeia de petróleo e gás atingiam as mulheres de forma particular: quando o marisco ficava escasso, a situação piorava sobretudo para elas, num cenário também associado a mais violência.
Dali surgiu o Projeto de Organização e Fortalecimento Sociopolítico das Marisqueiras do Litoral de Sergipe. “Esse projeto não criou o movimento: era um trabalho de educação popular e educação ambiental crítica com as mulheres da área de abrangência do Peac”, relata Sandra Oliveira, professora da UFS e atual coordenadora do projeto. “Ao entenderem os motivos pelos quais estavam empobrecendo, perdendo marisco, sofrendo mais violência e perdendo território, as mulheres concluíram que a melhor forma de enfrentamento era a via do movimento social. Elas se organizaram por iniciativa própria, depois de terem acesso a esse conhecimento e ao letramento político.”
Isso gera uma contradição estrutural, destacada pela equipe do Peac: um movimento social nasce de dentro de uma política de mitigação que é, ela própria, condicionante de uma licença para continuar explorando os territórios dessas mulheres. “O grande desafio ao longo dos anos tem sido como o movimento se emancipa desse lugar, inclusive financeiramente, já que ainda depende, em grande parte, do financiamento da Petrobras”, analisa Sandra. Segundo ela, as lideranças já compreendem essa contradição. Inicialmente viam a Petrobras como benfeitora; hoje, enxergam a empresa como responsável pelas mudanças vividas nas comunidades.

Marisqueira, sim, com muito orgulho
Para Sandra, nos últimos anos, a principal conquista do movimento foi dar visibilidade à mariscagem e ao papel das mulheres na defesa de seus territórios; não só em Sergipe, mas em outros espaços políticos e urbanos. Ela explica que, diferente das organizações ligadas à pesca, mais consolidadas na esfera pública, as marisqueiras historicamente não eram reconhecidas como pescadoras artesanais, “já que a maioria dos pescadores são homens”.
Acontece que o trabalho de beneficiamento do marisco — como retirar os moluscos e crustáceos da casca e preparar o filé de camarão — sempre foi feito por mulheres. “Mas isso nem era considerado parte da pesca artesanal, oficialmente.” A atuação da mulher no manguezal e na mariscagem era classificada como mera ajuda doméstica ou complementar à do marido pescador.
Essa assimetria histórica era sentida diretamente no bolso e nos direitos dessas trabalhadoras. Por décadas, as antigas normas das colônias de pesca sequer aceitavam mulheres em seus quadros. “Sob uma forte estrutura patriarcal, as marisqueiras definiram a luta de igualdade de direitos na pesca e o reconhecimento da própria identidade de marisqueira, que antes era invisibilizada”, afirma Gislei Lazzarotto, autora do livro Itinerâncias – Marisqueiras e educação ambiental: qual é o seu território?, fruto de seu pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFS com estágio no Peac.
Durante dois anos, ela conviveu com marisqueiras de diferentes regiões de Sergipe. “O que pude observar é que a vida cotidiana dessas mulheres se transforma em uma constante estratégia de defesa. Elas sofrem violência de gênero tanto nos espaços familiares quanto nos espaços de participação pública.” Segundo sua pesquisa, o cenário legislativo começou a mudar com a promulgação da Lei da Pesca (nº 11.959) em 2009, quando o Estado brasileiro incluiu as etapas de pré e pós-captura como partes integrantes e legítimas da cadeia produtiva da pesca artesanal.


Apesar do avanço no papel, a garantia real de benefícios sociais protetivos, como o seguro-defeso (pago aos pescadores durante o período de proibição da pesca para reprodução das espécies), ainda é complexa. Barreiras burocráticas e questionamentos sobre o reconhecimento da atividade feminina na mariscagem ainda persistem.
Recentemente, com articulação junto ao Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais as mulheres passaram a reivindicar o reconhecimento das marisqueiras como categoria própria, apesar de orientações anteriores sugerirem que seria mais vantajoso se autodenominarem apenas “pescadoras artesanais” para acessar direitos já consolidados. “Se já existia o movimento da pesca, por que não ter o das marisqueiras?”, questiona Graziela dos Passos, atual coordenadora do MMS.
“Elas assumem o lugar da marisqueira, lugar de guardiãs do mangue. E, ao mesmo tempo, elas não entram em confronto com o fato de serem pescadoras também”, afirma Gislei. Mais do que a busca por direitos trabalhistas, as marisqueiras transformaram o próprio nome de sua atividade em um símbolo de orgulho e força política.
“O movimento é uma escola, uma maneira de a gente aprender a andar com as próprias pernas”, afirma Jilvanilda Santos. Ela faz parte do MMS há cerca de 12 anos e conta o quanto o coletivo transformou sua vida. “Uma das coisas é o conhecimento e a consciência da violência que vivia com o meu ex-marido. Agora eu sei dos meus direitos, meus direitos como mulher e como marisqueira.”
Já Graziela relata que o movimento lhe deu a possibilidade de se fortalecer e de lutar pela sua comunidade.” Antes eu não sabia o que fazer, como resistir, quem procurar, sabe? Agora sabemos que tem o Ibama, que tem Adema [Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe], por exemplo. Alguns órgãos que foram feitos para nos ajudar.”


“Sem marisqueira, não tem caranguejo no prato”
É Sandra quem analisa: a identidade marisqueira sergipana está relacionada tanto às características do ecossistema quanto à cultura alimentar local. No estado, a diversidade e a abundância de mariscos ocorrem graças à geografia de rios e dos manguezais. Mas em intercâmbio com marisqueiras da Lagoa de Jequiá, no estado vizinho de Alagoas, por exemplo, o movimento constatou que, apesar de o mangue também ser “cheio de aratu”, elas não o capturam: seu principal produto é o siri.
Faz sentido, portanto, que a Feira da Cata ao Prato tenha se tornado um dos eventos mais estratégicos do movimento. “Foi uma explosão, uma conquista muito importante pra gente”, celebra Adriana. Com duas edições já realizadas em parceria com o Peac, a feira oferece diversas atividades para aproximar o público do universo das marisqueiras.
Durante dois dias, famílias inteiras consomem produtos e pratos tradicionais, além de conhecerem as mãos que os preparam. “É uma forma da sociedade entender essa cadeia produtiva e valorizar ainda mais o trabalho das marisqueiras”, afirma Sandra. “Sem mangue, não tem marisqueira. Sem marisqueira, não tem caranguejo no prato do sergipano.”
Hoje, a gestão do projeto dentro do Peac é compartilhada com as lideranças do MMS. O movimento reúne representantes de cerca de 20 comunidades, desde o norte do estado, passando pela região central — que inclui Aracaju, Barra dos Coqueiros, São Cristóvão, Itaporanga d’Ajuda — até chegar ao sul, onde há maior concentração de lideranças, já que foi onde o Peac iniciou suas primeiras ações.
Com o crescimento da visibilidade do movimento, as lideranças passaram a ser convidadas a participar de todo tipo de iniciativa — do governo federal a vereadores do interior —, nem sempre com intenção clara. Mas há também a incidência política genuína: mandatos populares aproximaram-se para comprar a causa do MMS e levá-la adiante. Entre as parceiras mais constantes está Linda Brasil, primeira deputada estadual trans de Sergipe e uma das mais bem votadas do estado. Ela participa dos encontros anuais do movimento, o Encontro das Marisqueiras de Sergipe (Emaris), para o qual também são convidados representantes do Ibama, da Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe (Adema), da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e do INSS, para que as marisqueiras possam cobrar o que lhes é devido.

Foi desses encontros que nasceram duas leis aprovadas recentemente. Uma instituiu, no início de 2026, o Dia Estadual da Marisqueira: 9 de janeiro. A outra, mais ambiciosa, criou a política estadual de incentivo à mariscagem, com ações de fomento e saúde laboral. “Achávamos que íamos brigar muito para passar”, conta Sandra, “mas aprovou rápido. Agora a briga é pelo orçamento.” Para a coordenadora do MMS, essas conquistas são fruto direto do trabalho de incidência política das marisqueiras. “A mobilidade entre povoados, o compartilhamento de demandas e do enfrentamento às violências, bem como as formações promovidas, criaram condições para que suas vozes fossem escutadas”, complementa Gislei.
O tempo dedicado à articulação externa, no entanto, afastou as lideranças de suas próprias comunidades. No último processo de avaliação conjunta, elas reconheceram: “Agora é a hora da gente voltar.” Fortalecer as bases, levar o que aprenderam fora para as mulheres que ficaram. Enquanto isso, as que permaneceram seguem expostas a ameaças que só crescem.
Corpo-território: “o mangue é minha vida”
O corpo das mulheres segue registrando, dia após dia, o preço de passar cada vez mais horas imersas na lama. Segundo relatos das marisqueiras, em dez anos, o volume de marisco recolhido despencou: o que antes se catava em duas ou três horas hoje exige um dia inteiro de trabalho, e ainda assim rende menos. “Trabalha-se mais para tirar menos, o marisco encarece, e a vida piora. A água está mais quente e contaminada. Isso afasta e escasseia o marisco”, resume Graziela.
Esse tempo a mais na água, submersas e molhadas por horas seguidas, também traz diversos agravos à saúde. Os mais relatados pelas marisqueiras, e os mais invisibilizados, são problemas ginecológicos e vasculares, além de lesões decorrentes de carregar peso. Ao longo de sua pesquisa, Gislei mapeou justamente como os corpos das marisqueiras e os territórios que habitam são indissociáveis, explicando o nexo entre as agressões ao meio ambiente e a vivência física e política das marisqueiras: “Para elas, o território é a extensão de si mesmas”, resume.
Na esteira da degradação ambiental, também se perdem os saberes que habitam o território. Como o “encantamento” do aratu, em que os crustáceos saem da toca atraídos por assovios, batidas na lata e cantorias.
Marilene Passos da Vitória, mãe de Graziela, demonstra: apesar de seus 68 anos, sobe numa gaiteira (os galhos retorcidos do mangue onde as catadoras se apoiam para ficar acima da lama), senta, bate e canta. “Se não cantar, eles não vêm.” Ela coloca uma isca, um aratu mesmo, na ponta do fio de náilon preso à varinha de pau, e espera. “O mangue é minha vida. Eu fui criada dentro do mangue. Aprendi a catar aratu com minha mãe, que aprendeu com a dela.”
Esse conhecimento transmitido oralmente, de geração em geração, hoje enfrenta uma ameaça menos evidente: a de algumas igrejas pentecostais e neopentecostais. Há relatos de proibição, por parte dessas igrejas, dos cantos usados para atrair o aratu, associados a religiões de matriz afro-indígena. Já entre os adventistas, a restrição é alimentar: eles pregam a abstenção de frutos do mar, considerados “impuros” pela Bíblia. “Eu não posso mais comer caranguejo, massunim… só peixe”, diz Marilene. “Mas posso pegar para os outros, que ainda não conhecem a Palavra.”

A falta de acesso ao mangue e o fim do rio
O “rio cercado”, citado no hino do MMS, faz referência ao acesso ao mangue que, pouco a pouco, está sendo cortado. No antigo povoado de Mosqueiro — que também integrava a a Zona de Expansão e, em breve, será mais um bairro de Aracaju —, Graziela aponta para a obra que há dois anos canaliza água doce sobre o mangue. Enquanto as máquinas passavam, ela viu os bichos escaparem, sufocados, da areia: aratus e guaiamuns subiam em paus para se salvar. “Bem ali, naquele pé de coqueiro, era a passagem para o nosso portinho”, diz ela, lembrando de quando todo mundo ia a pé para pescar e mariscar, até pouco tempo. “Essa água doce já está causando tudo isso. Sururu já está morrendo, as ostras estão caindo, mortas.”
Trata-se da fração de uma das maiores obras de infraestrutura urbana já executadas na capital sergipana, integrante do Programa Aracaju Cidade do Futuro, financiado pelo New Development Bank (NDB). De acordo com dados da prefeitura, o projeto inclui um sistema de macro e microdrenagem com um canal principal de 7,6 quilômetros e outros 18 canais auxiliares, além de pavimentação e esgotamento sanitário. O investimento total é de cerca de R$ 180,6 milhões e abrange Areia Branca. A prefeitura afirma que o objetivo é resolver os alagamentos históricos da região.
Graziela contra-argumenta: para ela as lagoas sazonais já cumprem a função de drenagem natural. Os terrenos, porém, têm sido vendidos e aterrados para novos loteamentos e condomínios. Para ela, a obra é mais uma porta de entrada para a especulação imobiliária que há anos impacta a região. “As pessoas foram tirando nossos manguinhos para construir seus píeres e lanchas maravilhosas, e virou isso aqui”, denuncia. Tudo, segundo ela, liberado pelo Ibama.

Agora, para chegar ao mangue, é preciso atravessar um trecho alagado, parte da obra. A prefeitura prometeu uma passagem por cima do canal de concreto, mas até agora nada foi feito. “E depois que tudo isso virar esgoto, como é que a gente vai passar?”, pergunta.
Órgãos estaduais e municipais garantem que a obra vai tratar o esgoto. As marisqueiras não acreditam. Elas se lembram do outro grande rio da cidade, o rio Sergipe, cuja promessa de tratamento de esgoto nunca saiu do papel. “É o que vai acontecer com o nosso Vaza-Barris aqui”, conclui Graziela.
Segundo a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), o rio Vaza-Barris tem 450 quilômetros de extensão. Ele nasce no sertão baiano e sua bacia hidrográfica corta 30 municípios até desaguar no oceano Atlântico, já em Sergipe, ao sul de Aracaju. Comunidades como Mosqueiro e Areia Branca, integrantes da capital, sempre viveram de suas águas.
A Orla Pôr do Sol, construída na comunidade de Mosqueiro, é outro exemplo de obra que afetou a vida às margens do Vaza-Barris: embora tenha trazido melhorias para a população, também impactou o meio ambiente a vida de pescadores e ribeirinhos. O que se vê no local é um grande número de lanchas de passeio e de construções irregulares. “Se eu chegar com o meu barquinho de pobre, não consigo encostar. A própria Marinha me tira de lá”, relata Jilvanilda Santos.
Essas obras não são uma história isolada. Segundo as marisqueiras, estão ligadas à expansão urbana desordenada e à especulação imobiliária, tidas como alguns dos principais fatores que levam à perda de território e limitação de acesso aos manguezais.

“São dois mundos em choque”
Há uma discussão em curso dentro do Peac sobre até onde vai a responsabilidade da indústria de petróleo e gás nesse cenário de ameaças. A equipe e o movimento das marisqueiras são questionados sobre por que trazem à pauta temas como a especulação imobiliária, aparentemente sem relação direta com o petróleo. “Essas ameaças estão conectadas ao modelo de desenvolvimento centrado na economia petrodependente: mais estradas, mais infraestrutura, mais fluxo de pessoas e capital”, afirma Sandra.
Na visão da professora e coordenadora do projeto, o contraste é claro: para a indústria de petróleo e gás, o território é recurso econômico. Para as marisqueiras, o mangue é modo de vida, fonte de alimento, sustento e renda. “O manejo que elas fazem é completamente diferente”, diz ela. “Elas não querem que o mangue acabe; querem cuidar dele. São dois mundos em choque.”
Certa vez, quando uma marisqueira lhe perguntou por que o governador, dono de uma casa às margens do rio, queria destruí-lo, Sandra respondeu: é que o rio, para este senhor, é paisagem, algo para contemplar, para andar de jet ski. A marisqueira pareceu confusa e questionou mais uma vez: “E ele come o quê?”
Apesar de suas fragilidades, a política de licenciamento ambiental ainda representa um obstáculo contra essa lógica de exploração. “Ela impõe que as pessoas saibam por que estão perdendo seus territórios, por que os mariscos estão mais escassos”, diz Sandra. “Foi feito para não passar a boiada em cima das comunidades.”É nessa contramão que o Peac segue operando — um programa custoso, segundo ela, mas irrisório frente à escala de quem financia. Um único dia de lucro da exploração de petróleo na Bacia de Campos, calcula Sandra, bancaria o programa inteiro por 40 anos.
Diante de um cenário cada vez mais desfavorável, o próprio movimento das marisqueiras discute alternativas locais de proteção. No sul do estado, tramita uma proposta parada há anos: transformar a região em reserva extrativista, unidade de conservação que permitiria às marisqueiras seguir com seu modo de vida sob outro amparo legal — um caminho que poderia ser replicado em diferentes áreas do estado. Sandra também acredita em modelos cooperativistas como caminho para viabilizar economicamente o trabalho das marisqueiras, com menos dependência do financiamento ligado à indústria. “A ideia de reparação deveria vir com algo permanente”, diz.
O que sustenta essas mulheres, no fim, é sua própria rede: de amizade, de cuidado, de trabalho dividido. “O movimento tem conseguido, em alguma medida, contar uma história e denunciar esse racismo ambiental”, complementa Gislei. “A chance dessas comunidades desaparecerem sem nem contar suas histórias é muito grande.”
Na perspectiva de futuro das marisqueiras, registrar essa memória, então, já é uma forma de vitória. Assim nasceu o livro Guardiãs do Mangue, memória marisqueira, uma obra coletiva publicada em 2025 pelo MMS, com coordenação da professora Lívia Cardoso (UFS) que reúne textos, poemas e registros visuais sobre vivências cotidianas da mariscagem. “As filhas hoje conhecem e escrevem essa história ao lado das mães, num orgulho que antes não existia”, celebra Gislei. Garantia, no entanto, não há. Elas seguem esperançosas, mas fica a dúvida se os netos e netas algum dia poderão viver do rio, do mangue e da mariscagem como viveram suas avós.

Leia também: Quilombo resiste onde o São Francisco encontra o mar
Imagem do banner: Adriana Hora dos Santos retira ostras de manguezal próximo a Areia Branca, antigo povoado tradicional que hoje é bairro de Aracaju. Foto: André Cherri / V.U.E.L.A.






