Apenas 23% da área antes ocupada pela Mata Atlântica permanece coberta por florestas. O bioma, onde vive 57% da população brasileira, sofreu intensa devastação ao longo dos séculos, deixando-o extremamente fragmentado. Para entender como essa fragmentação afeta a forma com que as sementes se espalham pela floresta, pesquisadores fizeram um estudo inédito — o primeiro em larga escala.
Esse processo é conhecido como “chuva de sementes”, e se refere às sementes que chegam ao solo da floresta, onde germinam, seja levadas pelo vento, seja pela dispersão realizada por animais.
“Queríamos entender que tipo de sementes estão chegando nos fragmentos da Mata Atlântica”, diz Luís Felipe Daibes, pesquisador do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e principal autor do estudo. “A semente é a base da regeneração, desse ciclo de renovação, de como a floresta vai se transformar no futuro.”
Os cientistas compilaram dados de 52 fragmentos florestais, que abrangem a extensão da Mata Atlântica brasileira de norte a sul. As informações vieram de estudos anteriores, produzidos por equipes de diversas instituições brasileiras de pesquisa.
O estudo reuniu mais de 1,3 milhão de sementes, coletadas em pequenas redes de malha fina, colocadas em diferentes locais da mata.
O principal achado do levantamento foi que a cobertura florestal, em conjunto com a chuva, é o fator mais importante para manter a diversidade de sementes em áreas fragmentadas.
“O que observamos é que áreas fragmentadas, mas que possuem outros trechos de floresta conservada ao redor, ou seja, têm uma boa cobertura vegetal, mantêm uma boa diversidade de sementes, apesar da fragmentação”, diz Luís Felipe.
A proximidade de áreas de floresta preservada proporciona mais conexão entre os fragmentos, facilitando a circulação de animais maiores e, consequentemente, o fluxo de sementes.
O pesquisador ressalta, entretanto, que áreas muito fragmentadas e isoladas podem até ter uma grande quantidade de sementes, mas, em geral, elas são pequenas, levadas pelo vento ou por passarinhos.
Produzidas por espécies conhecidas como pioneiras ou generalistas, essas sementes se dispersam com facilidade e dão origem a plantas de crescimento rápido, que podem acabar dominando a paisagem e deixando a floresta menos diversa.
São as sementes grandes, dispersadas por animais de maior porte — aves como tucanos, araçaris ou jacus, por exemplo —, que geram árvores mais frondosas e de crescimento lento, capazes de armazenar mais carbono em seus troncos.
“Qualquer política pública que preserve a floresta nativa, ainda que em fragmentos pequenos, é importante para manter um pouco ainda da saúde do que restou da Mata Atlântica pelo Brasil”, reforça Marco Aurélio Pizo, professor da Universidade Estadual Paulista e autor-sênior do estudo.
Imagem do banner: Vista geral de área de Mata Atlântica. Foto: William Zaca.





