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Peixe com mercúrio faz famílias ribeirinhas da Amazônia mudarem refeições

redacao by redacao
31/08/2026
in Últimas Notícias
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Peixe com mercúrio faz famílias ribeirinhas da Amazônia mudarem refeições
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  • Uma base de dados construída pela Mongabay Latam, a partir da análise de estudos científicos que reúnem mais de 7 mil amostras em humanos e 5.900 em peixes, identificou as áreas mais afetadas pela contaminação por mercúrio no rio Madeira, um dos principais rios brasileiros.

  • A Mongabay Latam investigou em campo o impacto da contaminação por mercúrio na saúde das comunidades mais afetadas: no Lago do Puruzinho, no estado do Amazonas, e na comunidade ribeirinha Calama e na Terra Indígena (TI) Karipuna, em Rondônia.

  • Estudos mostram que as concentrações de mercúrio nos habitantes do Lago do Puruzinho estão entre as mais altas registradas na bacia do rio Madeira e muito acima do limite de segurança da Organização Mundial da Saúde (OMS) levando moradores a mudarem seus hábitos alimentares.

  • Os altos níveis de mercúrio nas comunidades da Amazônia estão relacionados ao consumo de peixe, sua principal fonte de proteína. A acumulação de mercúrio em humanos pode causar graves danos à saúde, como problemas motores e neurológicos, afirmam os pesquisadores.

LAGO DO PURUZINHO/TI KARIPUNA/CALAMA, Amazonas e Rondônia — Ao redor de um lago de águas claras com abundância de peixes, está situada a comunidade Lago do Puruzinho, na Amazônia, um território que, à primeira vista, assemelha-se a um paraíso. Localizada a apenas 20 quilômetros da cidade de Humaitá, no estado do Amazonas, é uma área onde coexistem permanentemente dois sons: o canto de aves como o japu — de plumagem preta com bico amarelo, que voa em busca de árvores frutíferas — e o som estrondoso dos motores das embarcações que sulcam o rio Madeira.

Durante décadas, os cerca de 170 residentes da comunidade ribeirinha se alimentaram de todo tipo de peixe do lago, mas isso mudou quando conheceram a palavra mercúrio e souberam das grandes quantidades do metal pesado que a mineração ilegal de ouro joga no Madeira. Este rio, que alimenta as águas do lago Puruzinho, recebe a cada ano entre 10 e 50 toneladas de mercúrio, que são liberadas pelas dragas que extraem ouro dia e noite.

“Deu muito mercúrio mesmo no nosso cabelo [por causa] do peixe, que é o tucunaré, que a gente come muito”, conta Maria Rogelina Soares da Silva dos Santos, pescadora e dona de casa, na porta de sua casa, situada na margem do lago Puruzinho. “Foi um baita susto.”

Ela se refere aos estudos da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), dos quais ela participa ativamente há 26 anos. As pesquisas, que investigam como a contaminação por mercúrio afeta os peixes e, sobretudo, a saúde humana, concentram as medições em gestantes, lactantes e crianças das comunidades situadas às margens do rio Madeira. Os estudos revelaram, nos últimos anos, a presença de altos níveis de mercúrio nas comunidades ribeirinhas, muito acima do índice da população das áreas urbanas, diz Ronaldo de Almeida, coautor de várias das publicações da UNIR na região.

Na comunidade de Lago do Puruzinho, no estado do Amazonas, não há mineração de ouro, mas as correntes do rio Madeira transportam peixes contaminados por mercúrio, devido à mineração ilegal na região. Esse mercúrio acaba no organismo da população ribeirinha, que apresenta altas concentrações da substância nos cabelos, sangue e fezes. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Um dos estudos científicos, publicado em 2024, mostra que o acúmulo de mercúrio nos habitantes do Lago do Puruzinho está “entre os mais elevados registrados na bacia do rio Madeira, indicando um nível significativo de exposição ao mercúrio nessa área”. A concentração média no cabelo flutuou entre 15,61 e 25,81 miligramas por quilograma, um intervalo muito acima do limite de segurança estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 2 miligramas por quilograma. “Esses níveis são significativamente mais elevados em comparação com outras regiões da Amazônia [brasileira]”, destaca a publicação.

Depois de conhecer esses resultados, Maria Rogelina dos Santos narra que “mudou completamente quase tudo” para ela e para sua família, pois diminuíram drasticamente o consumo de peixes como o tucunaré, que por anos foi a base de sua alimentação.

O pesadelo que vive hoje a família Dos Santos é uma das tantas histórias que a Mongabay Latam descobriu ao investigar e construir uma base de dados que reúne mais de 7 mil amostras de mercúrio em humanos e mais de 5.900 em peixes, coletadas às margens dos rios amazônicos de Madre de Dios, no Peru, Beni, na Bolívia, e Madeira, no Brasil.

Tucunaré (Cichla ocellaris). Foto: © Eric Fischer Rempe vía iNaturalist. CC BY-NC 4.0.

A análise dos 42 estudos científicos, publicados entre 1997 e 2024, revelou que os habitantes de pelo menos 249 comunidades indígenas e ribeirinhas estiveram expostos à contaminação ao longo de 27 anos. Outras 702 comunidades estão em risco, por estarem situadas entre os focos de mineração ilegal, além dos casos de pessoas que testaram positivo para a presença de mercúrio no organismo. No caso do Brasil, pelo menos 286 comunidades indígenas e ribeirinhas desconhecem quanto metal pesado há em seus corpos, bem como o perigo dessa exposição constante.

Para entender como é a vida de quem convive com o mercúrio, uma equipe jornalística investigou em campo o impacto dessa contaminação em peixes e na saúde dos residentes da comunidade ribeirinha Lago do Puruzinho, no estado do Amazonas, e da comunidade ribeirinha Calama e da Terra Indígena Karipuna, no estado de Rondônia, identificados como casos críticos nos estudos que fazem parte da base de dados construída para esta investigação.

Foram colhidos depoimentos nas comunidades avaliadas, entrevistados médicos e cientistas que explicaram os efeitos desse metal pesado em pessoas, peixes e no meio ambiente. Autoridades locais também foram contatadas para compreender a gravidade e a expansão dos problemas de saúde pública, e solicitadas respostas ao governo federal sobre o que tem sido feito para combater o uso do mercúrio na mineração de ouro na região e seus efeitos nocivos.

 

Contaminados sem saber

Duas horas de barco regular ou 40 minutos de voadeira é o tempo necessário para chegar à comunidade Lago do Puruzinho, partindo da cidade de Humaitá. A rota pelo rio vai desenhando a típica cena amazônica: o ruído do motor, o som da água e o verde da floresta refletido no espelho d’água que abriga uma grande quantidade de espécies da fauna.

No lago Puruzinho não há extração de ouro e, à primeira vista, o local parece um refúgio natural. No entanto, as correntes do rio Madeira arrastam peixes contaminados pelo mercúrio, usado pela mineração ilegal na região. É assim que esse metal pesado, acumulado nos tecidos dos peixes, acaba nos corpos das pessoas, e isso se traduz nas altas concentrações de mercúrio no cabelo, sangue e fezes dos moradores, apontam os estudos.

“O pescado é, infelizmente, a principal via de entrada para a ingestão de mercúrio”, diz sentado em sua mesa na UNIR de Porto Velho, Ronaldo de Almeida, coautor de um estudo publicado em 2021, que traz mais evidências sobre a relação entre o alto consumo de peixe e os níveis de mercúrio no sangue dos residentes que vivem nas comunidades da Amazônia brasileira.

O pescado é, infelizmente, a principal via de entrada para a ingestão de mercúrio”, afirma Ronaldo de Almeida, pesquisador da UNIR em Porto Velho e coautor de diversos estudos sobre os efeitos do mercúrio no rio Madeira. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Almeida explica que a contaminação por mercúrio orgânico na alimentação, o chamado metilmercúrio, é muito mais grave do que a exposição direta ao mercúrio metálico. “Quando alguém usa o mercúrio metálico, que é o mercúrio elementar e é líquido, se você o deixa aqui em cima da bancada, ele vai evaporar. Se você inalar esse mercúrio, ele vai causar algum dano na sua saúde? Vai sim, mas o seu organismo vai eliminá-lo a uma taxa muito maior do que o mercúrio orgânico”, explica Almeida. “Já o mercúrio orgânico, o metilmercúrio, quando a gente o ingere por algum tipo de alimento, ele entra no organismo e a taxa de eliminação dele é muito baixa. Então, ele fica retido no organismo, vai se acumular ao longo do tempo, e vai causar sérios danos à saúde: problemas neurológicos, problemas cardiológicos, problemas de orientação mesmo.”

Raimundo Nonato dos Santos vive às margens do Lago do Puruzinho há 55 anos e também colabora com os estudos da UNIR. Junto com sua esposa, Maria Rogelina dos Santos, consumiu por anos peixes como o pintado e o tucunaré — que ele tanto gosta — até saber da contaminação por mercúrio. Naquele momento, ele entendeu que o metal pesado estava em seu corpo.

“É como se a gente estivesse numa inocência, sem saber de nada que estava acontecendo”, diz ele, que é presidente da Associação de Desenvolvimento da Comunidade do Lago do Puruzinho, à Mongabay Latam, sentado sob a sombra de uma árvore frondosa na margem do lago.

Após tomarem conhecimento dos resultados de estudos da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que investigam como a intoxicação por mercúrio afeta os peixes a saúde humana, Raimundo Nonato dos Santos (primeiro à esquerda) e sua esposa, Maria Rogelina dos Santos, reduziram o consumo de peixes como o tucunaré. Foto: Kelvily Santos de Souza para Mongabay.

Foram coletadas cerca de 76 amostras de pessoas e mais de 2 mil amostras de peixes nos estudos científicos que mencionam o Lago do Puruzinho e que foram incluídos na base de dados construída pela Mongabay Latam. Os resultados evidenciam a presença de mercúrio entre três e sete vezes acima do limite seguro da OMS. Peixes como o tucunaré e o curimatã figuram na lista das espécies mais afetadas e que, por sua vez, fazem parte da dieta dos moradores. A esses resultados devem-se somar outros estudos publicados pela UNIR que foram encontrados durante a investigação em campo e que trouxeram mais evidências do impacto do mercúrio despejado no rio Madeira na saúde humana.

Esse problema se expande também para outras comunidades no Amazonas. A professora Renata Vieira Guacebe, de 41 anos, trabalha como bolsista de vários estudos da UNIR não apenas no Puruzinho, mas também em outras comunidades da região. Ela é uma das moradoras que continua comendo peixe três ou quatro vezes por semana e que está preocupada com os resultados da contaminação em peixes e na água do Puruzinho.

“Eu gosto de comer peixe. Se ele estiver contaminado, como que a gente vai fazer para continuar se alimentando do peixe? Então, a gente tem que ter toda aquela preocupação de que não vai ser como era antes”, diz Guacebe. “Como que a gente vai poder tomar água? A gente vai ter que ir quase todos os dias na cidade para buscar água.”

O panorama torna-se mais complexo ao considerar que alguns dos habitantes da comunidade trabalham na mineração de ouro para sustentar suas famílias. Isso fica evidente em alguns estudos, em depoimentos colhidos na região e também pelas balsas de mineração ilegal ancoradas em algumas casas próximas, como pôde observar a equipe da Mongabay Latam durante a reportagem.

De fato, os pesquisadores afirmaram que não conseguiram investigar em detalhes o impacto do mercúrio nos homens, em algumas comunidades, porque eles estavam trabalhando na mineração quando chegaram para coletar as amostras.

 

Calama: entre botos e dragas

Na rota para a comunidade de Calama, a três horas de barco regular ou uma hora de voadeira da cidade de Humaitá, um grupo de botos salta nas águas do rio Madeira enquanto a embarcação da reportagem é abastecida com combustível. Esse espetáculo ocorre em frente a quatro dragas de mineração ilegal de ouro estacionadas a poucos metros do posto de gasolina.

Em maio de 2025, uma operação do governo federal destruiu dezenas de balsas e dragas no rio Madeira, incluindo as regiões de Humaitá e Calama. No entanto, uma semana depois, a mineração estava de volta e operando normalmente na área, conforme testemunhou a Mongabay Latam. Essa região tem sido alvo recorrente de operações do governo federal para combater o garimpo ao longo dos anos. Uma das últimas foi executada em setembro de 2025.

Apesar dessa situação, os moradores da comunidade de Calama dividem-se entre participar da mineração ilegal de ouro para subsistir e aceitar os efeitos da contaminação por mercúrio. A Mongabay Latam entrevistou três funcionárias de uma escola de ensino fundamental em Calama, que também participaram dos estudos da UNIR. Todas disseram que suas análises mostraram resultados normais, que continuavam comendo peixe e que não estavam preocupadas com a contaminação por mercúrio — algumas até desacreditaram os efeitos nocivos do metal pesado e a contaminação dos peixes.

Uma balsa utilizada para mineração ilegal de ouro estava escondida na comunidade ribeirinha de Calama, no estado de Rondônia. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

“A ciência pode falar, mas eu acredito que o mercúrio — posso estar falando errado — não influi nada no peixe. Porque o mercúrio é uma coisa que, se cair aqui, você não pega, ele vai embora para dentro da terra, não sei nem se dá tempo de o peixe comer ou não”, diz Rosa Lúcia Barreto, técnica responsável pela merenda escolar. “Se o mercúrio influísse em alguma coisa, seria no peixe de couro [sem escamas], mas eu também não acredito.”

Um dos estudos da nossa base de dados, do qual Almeida é coautor, revela que a média de concentração de mercúrio no cabelo da população amostrada em Calama supera os 2 microgramas por grama estabelecidos como limite pela OMS. Os resultados evidenciam que o nível médio de mercúrio entre as 34 pessoas amostradas foi de 9 microgramas por grama , ou seja, mais de quatro vezes acima do limite considerado seguro.

A comunidade ribeirinha de Calama, no estado de Rondônia, tem sido alvo de repetidas operações do governo federal para combater a mineração ilegal ao longo de vários anos. Apesar disso, os moradores da comunidade estão divididos entre participar da mineração ilegal de ouro para sobreviver e aceitar os efeitos da contaminação por mercúrio. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Pirarucu envenenado

Uma verdadeira ilha verde em um mar de desmatamento, a Terra Indígena Karipuna está cercada por fazendas de gado, soja e madeireiras, conforme avistamos no percurso de quatro horas de caminhonete de Porto Velho até o território.

Com uma área de 153 mil hectares, a TI é uma das menos povoadas do Brasil. É habitada por 63 pessoas, o que contrasta com os milhares de moradores indígenas que havia antes da colonização. Além dos invasores que frequentemente entram na área protegida para cortar árvores e caçar ilegalmente, seus residentes sofreram com a contaminação e a escassez de peixe, tradicional em sua dieta há vários séculos, afirma o líder indígena Adriano Karipuna.

Além dos invasores que frequentemente entram na Terra Indígena Karipuna, no estado de Rondônia, seus moradores sofrem com a poluição e a escassez de peixes, alimento básico em sua dieta há séculos. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

“Há 10 anos, com meia hora você pegava, sem exagero, até 500 quilogramas de peixe, tanto com a flecha tradicional ou de malhadeira — que é a nossa prática tradicional de pescar — ou quando você joga a linha, que é o que nós fazemos hoje. Hoje, a gente espera 6 horas e, se pegar quatro peixes, é bastante”, explica Adriano Karipuna. “E já está vindo contaminado.”

Considerado um dos maiores peixes de água doce do mundo, o pirarucu pode medir até três metros de comprimento, pesar mais de 220 quilogramas e é um dos mais populares na região amazônica, não apenas para os povos tradicionais, mas também nos centros turísticos. Os Karipuna costumavam pescar até dois desses peixes gigantes durante o verão amazônico — o período de seca —, afirma Adriano Karipuna, mas atualmente “você passa semanas para poder capturar um pirarucu”.

Um estudo científico publicado em 2022 analisou amostras de peixes coletadas na TI e detectou uma concentração total de mercúrio de 150 miligramas por quilo nos tecidos do pirarucu. A pesquisa também menciona que cerca de 94% do mercúrio está ligado às proteínas musculares, “um fato extremamente preocupante, considerando a bioacumulação de mercúrio nessa espécie e o consumo extensivo de sua carne por populações ribeirinhas e urbanas da região amazônica”.

Pirarucu (Arapaima gigas). Foto: T.Voekler – Obra propria vía Wikimedia. CC BY-SA 3.0. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3135168

A bioacumulação ocorre quando um animal se alimenta de animais que, por sua vez, se alimentaram de outros, de modo que elementos químicos como o mercúrio, absorvidos por todos eles ao longo da vida, se acumulam nos tecidos dos predadores, que se encontram no topo da cadeia alimentar.

Em termos de segurança alimentar, apesar da concentração total do metal detectado no estudo estar abaixo dos valores recomendados pela OMS — de 500 miligramas por quilo —, os pesquisadores afirmam que o nível de mercúrio no pirarucu é “motivo de preocupação” porque é o peixe “mais consumido nos centros urbanos de toda a região amazônica e em restaurantes frequentados por turistas”.

“O mercúrio tem uma capacidade de solução no tecido bastante forte e, dificilmente, é filtrado pelo rim e pelo fígado, mecanismos fisiológicos de filtragem do organismo. E aí, ele vai se tornando parte constituinte de tecidos dos peixes”, explica Eduardo Bessa, professor de biologia na Universidade de Brasília (UnB), à Mongabay, no campus. “E nós consumimos a musculatura do peixe. Então, se a musculatura é um dos tecidos mais contaminados… E a gente não come um peixe ao longo da vida, a gente vai comer uma série de vezes.”

Amostras de peixes coletadas em comunidades ribeirinhas ao longo do rio Madeira pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que há 26 anos investiga como a intoxicação por mercúrio afeta os peixes e a saúde humana. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Em seu estudo de pós-doutorado, Bessa detectou que os peixes migratórios e predadores como o pirarucu desenvolvem-se em áreas que recebem água de todos os afluentes que os cercam — onde geralmente ocorre a mineração de ouro — e nas partes mais baixas do leito do rio, para onde vão os metais pesados.

“Se ele desenvolve um óvulo baseado na dieta rica em mercúrio, esse óvulo vai conter mercúrio também. Aí, quando chegar lá em cima, quando ele for se reproduzir, ele vai botar ovos e gerar embriões que já estão contaminados”, afirma Bessa, que tem mestrado em zoologia e doutorado em biologia animal. “Mesmo que o embrião nunca tenha nadado no rio contaminado por mercúrio, ele herdou da mãe.”

No caso da população humana, afirmam os estudos, os efeitos nocivos decorrentes da exposição ao mercúrio após comer peixe contaminado costumam aparecer depois de muitos anos. No entanto, para grupos vulneráveis, como crianças pequenas, idosos e pessoas imunodeprimidas, os riscos podem ser mais imediatos. As pesquisas mostram que, mesmo que os níveis do metal estejam abaixo do recomendado pela OMS, a intoxicação por mercúrio pode provocar diversas doenças, como problemas cerebrais e paralisia infantil devido à bioacumulação.

A situação é ainda mais preocupante se a carne do peixe contaminado for consumida por gestantes, lactantes, bebês e crianças pequenas, já que os contaminantes podem provocar problemas de desenvolvimento neurológico em um prazo muito mais curto, apontam os estudos consultados. Adriano Karipuna menciona que os problemas de saúde em seu povo aumentaram nos últimos anos, como o nascimento de crianças com problemas motores.

“Estão nascendo com problemas, com sofrimento de coração, com uma cabeça enorme. Tem jovens e adolescentes que já estão com falta de ar, coisa que nós não tínhamos — culturalmente falando, dentro da nossa ancestralidade — essas coisas não aconteciam há 20, 30, 50 anos”, afirmou, também chamando atenção para ocorrências de câncer.

O líder indígena Adriano Karipuna afirma que os problemas de saúde em sua comunidade aumentaram nos últimos anos, como o nascimento de crianças com deficiências motoras, algo que não ocorria anos atrás. Ele pede que sejam feitos estudos com todas as espécies de peixes e também com todos os habitantes do território para saber se estão contaminados ou não. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

O Ministério da Saúde informou que, nos últimos cinco anos, não foram registrados casos de problemas de mobilidade, tumores ou neoplasias entre recém-nascidos indígenas na TI Karipuna e que foram registrados 12 casos de doenças respiratórias entre 2021 e 2025.

“Precisa fazer um estudo com todos os Karipuna — idosos, crianças e adolescentes — para ver se estamos contaminados”, afirma Adriano Karipuna. “E [também] pegar os peixes, não só o pirarucu, mas todos os peixes, para fazer um rastreio disso, para ver o tipo de contaminação.”

Proteção que não chega

Desde 2013, o Brasil é um dos 128 países signatários da Convenção de Minamata, que estabelece regulamentações rigorosas para o uso, comercialização e produção de mercúrio. Em 2018, o governo federal publicou um decreto promulgando a convenção no país.

No entanto, conforme constatou a Mongabay Latam nos estados do Amazonas e de Rondônia, onde várias balsas e dragas mineradoras usam mercúrio, o governo brasileiro não conseguiu implementar a restrição do uso da substância nem existe uma data estabelecida para aplicá-la, segundo declarações dos ministérios envolvidos na Convenção de Minamata, obtidas por pedidos de acesso à informação e por suas assessorias de imprensa.

“O Brasil não possui um Plano Setorial [vigente] de Implementação da Convenção de Minamata sobre Mercúrio”, diz o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).

De acordo com o ministério, o Brasil apresentou em 2023 sua Avaliação Inicial da Convenção de Minamata sobre Mercúrio (MIA, da sigla em inglês) — um estudo sobre a situação nacional em relação ao uso, emissões e liberações de mercúrio — que serviu para identificar lacunas regulatórias e fontes de liberação de mercúrio, e permitiu estabelecer prioridades para cumprir as obrigações estabelecidas na convenção. No entanto, não informou sobre o prazo de implementação das medidas.

Dragas extraem ouro do rio Madeira dia e noite, deixando um rastro de destruição por mercúrio. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Segundo o MMA, o Plano Nacional de Ação para a Mineração Artesanal e em Pequena Escala de Ouro (Pan-mape), desenvolvido pelo Ministério de Minas e Energia (MME), integrará as ações do Brasil para cumprir as obrigações da Convenção de Minamata. O MME informou que o plano contempla o mapeamento e diagnóstico das práticas atuais na mineração artesanal e de pequena escala de ouro, incluindo o uso de mercúrio e seus impactos ambientais e sociais, bem como o desenvolvimento e promoção de alternativas tecnológicas ao uso de mercúrio, com foco em métodos mais seguros e sustentáveis.

O ministério disse que também promoverá a capacitação e assistência técnica aos garimpeiros para a adoção de práticas responsáveis e que fortalecerá a fiscalização e o controle do comércio e uso do mercúrio, em colaboração com outros órgãos governamentais, sem detalhar essas ações. A minuta do plano está em consulta pública até 9 de setembro e as sugestões” serão analisadas tecnicamente e subsidiarão a versão final do Plano”, diz o MME. O Panorama Nacional da Mineração de Pequena Escala (Mape), que, segundo o MME, é produto de mais de cinco anos de pesquisa, está disponível nesta página.

O Ministério Público Federal (MPF) criticou o fato de povos indígenas, comunidades ribeirinhas, organizações da sociedade civil e órgãos ambientais não terem sido incluídos no processo de elaboração do plano. “Dos 1.145 entrevistados pela consultoria contratada para mapear a situação do ouro no país, 1.051 eram garimpeiros e 51 eram gestores. Ou seja, nenhum indígena, ribeirinho ou representante de entidades socioambientais foi ouvido durante a fase inicial de levantamento de dados, excluindo do debate justamente as populações que sofrem os impactos diretos da degradação ambiental”, afirma o MPF em um comunicado à imprensa.

Para o MPF, trata-se de uma “distorção”, levando em conta as estimativas oficiais de que o Brasil conta com aproximadamente duzentos mil garimpeiros de ouro em atividade, enquanto o número total de cidadãos diretamente afetados pelos impactos socioambientais nas regiões próximas às áreas de mineração ultrapassa 6,3 milhões de pessoas.

O MMA e o MME disseram que a participação das comunidades tradicionais e da sociedade civil está contemplada na consulta pública do Pan-mape.

O MMA informou que, em colaboração com o Ibama, o Ministério da Saúde, o Ministério dos Povos Indígenas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), possui um programa de monitoramento ambiental em terras indígenas Yanomami, no estado de Roraima, mas nenhuma ação específica foi realizada no rio Madeira. Acrescentou que não dispõe de estudos, relatórios ou análises sobre a contaminação por mercúrio no Madeira, e que, no momento, não há medidas nem orçamento destinados a combater tal contaminação.

Ao redor de um lago de águas cristalinas e com abundância de peixes, a comunidade Lago do Puruzinho, no estado do Amazonas, é um território que, à primeira vista, parece um paraíso. Mas as correntes do rio Madeira arrastam para lá peixes contaminados com mercúrio. Foto: Kelvily Santos de Souza para Mongabay.

Os casos de intoxicação exógena por substâncias químicas são registrados desde 2007, informou o Ministério da Saúde (MS), e os serviços hospitalares (públicos e privados) que identificarem casos suspeitos e confirmados de intoxicação por mercúrio devem notificá-los, obrigatoriamente, por meio do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). Segundo o MS, nos últimos 20 anos foram registrados 30 casos de intoxicação por mercúrio no Amazonas e 12 em Rondônia, os estados visitados pela Mongabay Latam. O ministério informou que os dados referem-se a internações em nível estadual e que não dispõe de dados federais específicos sobre a região do rio Madeira.

Segundo o MS, na região do rio Madeira, os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei) de Manaus e de Porto Velho mapeiam as atividades poluidoras (como o garimpo) e centralizam os dados de contaminação por meio do Comitê sobre Mercúrio, Agrotóxicos e Outros Contaminantes Ambientais (Cmac). O ministério informou que lançou, durante a COP 30 em Belém, o Plano Estratégico para Medidas de Atenção, Vigilância e Promoção à Saúde de Populações Expostas e Potencialmente Expostas ao Mercúrio (Plano Mercúrio), que prevê, entre outras ações, a criação de um centro de referência em saúde na Amazônia, a ampliação da capacidade laboratorial do Sistema Único de Saúde (SUS) para análise de mercúrio, a qualificação dos sistemas de informação, a promoção da pesquisa científica e a integração entre vigilância, atenção à saúde e setores como meio ambiente e educação.

O Centro de Clima e Saúde de Rondônia (CCSRO) está em fase de estruturação, identificando as ações e necessidades atuais do território, acrescenta, mas “atividades relacionadas à contaminação por mercúrio não estão contempladas neste momento”.

O MS informa que participa ativamente da construção do plano de implementação da Convenção de Minamata desde 2020 e que o orçamento alocado para o ano de 2025 foi de R$ 20,6 milhões, mas destacou que esse montante é compartilhado com outras ações desenvolvidas pela pasta.

Por fim, o ministério diz que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) recomendou em 2025 a incorporação do ácido meso-2,3-dimercaptossuccínico (DMSA/succímero) ao SUS para o tratamento da intoxicação aguda por mercúrio. Em junho, foi publicada uma portaria que dá prazo até dezembro para a incorporação desse medicamento no sistema público de saúde.

Mercúrio: um inimigo invisível

Luciano Bortolotti, médico-cirurgião dos sistemas de saúde público e privado em Humaitá, afirma que “é difícil isolar” o fator da contaminação por mercúrio para detectar problemas de saúde, pois os sintomas confundem-se com outras doenças.

“A complicação do mercúrio seria mais para problemas neurológicos e tem diversas doenças neurológicas degenerativas que vão simular [os mesmos sintomas]”, comenta Bortolotti em seu consultório particular. “Você acha que é Parkinson, você acha que é micrografia — que é uma das coisas que acontece: a pessoa escreve com uma letra pequena.”

Daí a importância de realizar uma análise científica com uma metodologia clara por meio de amostras das populações mais expostas, acrescenta, além de se fazer um bom controle com outras pessoas que não estão sob risco, para ver a diferença. “Com certeza há um impacto, qual é o grau desse impacto?.”

Bortolotti explica que a intoxicação crônica, que ocorre pelo consumo de peixe ou outro alimento, é a mais comum.

Moradora do Lago do Puruzinho, a professora Renata Vieira Guacebe é bolsista em diversas pesquisas na Universidade Federal de Rondônia (UNIR) que pesquisa a contaminação por mercúrio na bacia do rio Madeira. Ela continua a comer peixe três ou quatro vezes por semana e está preocupada com os efeitos da contaminação nos peixes e na água do Puruzinho. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

O município de Humaitá não possui dados específicos sobre os problemas de saúde decorrentes da contaminação por mercúrio, diz a secretária de saúde Sara dos Santos Riça. Mas ela afirma que “deu uma acelerada” nos casos de câncer, e sobretudo, de autismo, nos últimos anos.

Riça menciona que o município dispõe de unidades básicas de saúde que fazem atendimento médico via fluvial às comunidades ribeirinhas, mas o custo de ir às áreas mais isoladas é muito alto e supera o orçamento alocado pelo Ministério da Saúde. “É muito caro [prestar assistência à] saúde aqui. E o Ministério da Saúde, até hoje, não consegue ter esse olhar [diferenciado para a] região amazônica. É a dificuldade que a gente tem”, diz ela à Mongabay em seu escritório.

Em Calama também houve relatos do aumento expressivo de casos de autismo entre os alunos da escola municipal onde as entrevistas foram feitas.

Em maio de 2025, o Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério dos Povos Indígenas publicaram um manual técnico para o atendimento de populações indígenas expostas ao mercúrio, com objetivo de fornecer orientação para um tratamento adequado, dada a falta de uma rede de serviços para atender a essas pessoas e a falta de conhecimento entre os profissionais de saúde e os pacientes.

O Ministério da Saúde também informou que elaborou as “diretrizes brasileiras para o diagnóstico e tratamento de intoxicações por mercúrio”, que encontram-se em fase de avaliação para posterior aprovação e publicação, e estarão disponível em breve na Rede de Atenção à Saúde do Sistema Único de Saúde, tanto para as comunidades indígenas como para a população em geral (todos os estudos podem ser consultados aqui) .

“Hoje em dia a gente tem já algumas metodologias para populações que são expostas pelo envenenamento orgânico, de uso de inseticidas e herbicidas em geral, tem [também] para controle de malária, mas para para a questão do mercúrio a gente não tem”, afirma Almeida, o pesquisador da UNIR que participa de vários projetos sobre os efeitos do mercúrio no rio Madeira.

Ter um sistema específico para doenças decorrentes da contaminação por mercúrio é importante porque, quando a contaminação já afetou o sistema nervoso central e a pessoa apresenta déficits motores, sensoriais e cognitivos, não há cura, afirmam os cientistas. Daí a importância de detectar as doenças em seus estágios iniciais e fazer as intervenções adequadas para proporcionar qualidade de vida aos doentes, acrescentam os especialistas.

Diante de todos os impactos da contaminação, Almeida urge interromper a emissão de mercúrio. “O negócio é parar de emitir, é a primeira coisa. A gente precisa fazer isso.”

No Lago do Puruzinho, Raimundo dos Santos conta que seu sonho é poder desfrutar da beleza do lago e viver de suas riquezas sem mercúrio. “A gente ama essa natureza que Deus deixou para nós”, diz olhando para o espelho d’água. “É o meu sonho criar peixe dentro da própria região.”

Banner image: Moradora do Lago do Puruzinho, a professora Renata Vieira Guacebe é bolsista em diversas pesquisas na Universidade Federal de Rondônia (UNIR) que pesquisa a contaminação por mercúrio na bacia do rio Madeira. Ela continua a comer peixe três ou quatro vezes por semana e está preocupada com os efeitos da contaminação nos peixes e na água do Puruzinho. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

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Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e a primeira brasileira vencedora do John B. Oakes Award for Distinguished Environmental Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA. Membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center, ela é também a primeira brasileira e latino-americana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no LinkedIn, Instagram, Threads, Bluesky e 𝕏.









Fonte de Matéria – https://brasil.mongabay.com/2026/08/peixe-com-mercurio-faz-familias-ribeirinhas-da-amazonia-mudarem-refeicoes/

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